Ficha tcnica:
Ttulo da obra: Raven - livro 4 da srie rfs
Ttulo original: Raven
Autor: V. C. Andrews
Srie: rfs
Gnero: romance
Editora: Bertrand Brasil
Digitalizao: Airton Smile Marques
Reviso: Marcilene Chaves
Numerao de pginas: no foi possvel manter.

Sinopse

Vivendo com a me bbada em um apartamento, uma jovem de 12 anos no se cansa de sonhar com um verdadeiro lar. Em Raven, quarto volume da Srie rfs, V.C. Andrews 
nos deleita com mais uma narrativa sensvel e humana.Aps a priso da me, a menina passa a viver na casa dos tios, em companhia dos primos. L, sujeita aos cuidados 
da meiga tia Clara, ela passa a sentir uma esperana em seu corao, no obstante o comportamento arredio e inoportuno do tio, que no a deseja por perto.Atrs da 
aparente normalidade da famlia que a acolheu, h alguns segredos nada agradveis prontos a vir  tona. A jovem Raven desconhece a dolorosa humilhao que vir a 
sofrer na casa que vive. Desgostosa, ela estar disposta, mais do que nunca, a voltar a viver com a me.
Raven
V. C. ANDREWS
Raven
Vol. 4 - Srie rfs
Traduo A.B. Pinheiro de Lemos
BERTRAND BRASIL
Copyright (r) 1998 by the Virginia C. Andrews Trust and The Vanda Partnership.
Publicado mediante contrato com o editor original, Pocket Books, New York.
Depois da morte de Virginia Andrews, a famlia Andrews passou a trabalhar com uma escritora escolhida com o maior cuidado, a fim de organizar e completar suas histrias, 
alm de criar romances adicionais, como este, inspirado por seu gnio na fico.
Este livro  uma obra de fico. Nomes, personagens, lugares e incidentes so produtos da imaginao da autora ou usados de maneira fictcia. Qualquer semelhana 
com eventos reais, como locais ou pessoas, vivas ou mortas,  mera coincidncia.
Ttulo original: Raven
Capa: Silvana Mattievich, usando ilustrao de Lisa Falkenstern
Editorao: Art Line
2000
Impresso no Brasil/Printed in Brazil
CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
Andrews, V. C. (Virginia C.)
A581r Raven / V. C. Andrews; traduo A. B. Pinheiro de Lemos. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000
160p. - (Srie rfs; 4)
Traduo de: Raven Continuao de: Brooke ISBN 85-286-0784-4
1. Romance norte-americano. I. Lemos, A. B. Pinheiro de Lemos (Alfredo Barcelos Pinheiro de), 1938-. II. Ttulo. in. Srie
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Prlogo

- Nunca pedi para nascer.
Foi o que declarei para minha me quando ela se queixou de todos os problemas que eu lhe causara desde o dia em que nascera. Minha me acabara de receber um telefonema 
da escola. O inspetor de freqncia dos alunos ameaara lev-la ao tribunal se eu deixasse de ir  escola mais uma vez. Eu detestava a escola. Era uma colmeia de 
idiotas zumbindo em torno desta ou daquela abelha-rainha, ameaando me picar se eu tentasse me infiltrar em seus pequenos e preciosos crculos sociais. E, de qualquer 
forma, minhas turmas eram enormes, a maioria dos professores nem tomava conhecimento da minha existncia. Se no fosse pelos novos cartes automticos de freqncia, 
ningum jamais ficaria sabendo que eu no ia  escola.
Mame fechou a porta da geladeira com o p descalo. Bateu com tanta fora a garrafa de cerveja no balco que quase a quebrou. Pegou o abridor para tirar a tampa 
e me fitou, com os olhos injetados. O telefonema do inspetor arrancara-a de um sono profundo. Ela levou a garrafa aos lbios e bebeu, os msculos no pescoo fino 
pulsando com o esforo de descer pela garganta tanta cerveja quanto possvel em um s gole. Percebi que ela tinha um cotovelo esfolado e uma equimose no antebrao 
direito.
Estvamos em pleno vero, um desses perodos de calor intenso fora da estao. Era o dia 21 de outubro, o outono bem adiantado, mas o termmetro marcava mais de 
32C. Os cabelos de mame, to pretos quanto os meus, caam sobre suas faces. Sua franja era comprida demais e irregular. Ela espichou o lbio inferior para cima 
e soprou os cabelos sobre os olhos. J fora uma mulher muito bonita, com olhos que faiscavam como prolas negras. Tinha uma pele morena, malares salientes e feies 
perfeitas. As mulheres injetavam silicone nos lbios para terem o formato e o volume que mame possua naturalmente. Eu me sentia lisonjeada quando as pessoas me 
comparavam com ela naquele tempo. Meu sonho era ser to bonita quanto minha me.
Agora, porm, eu fingia que nem tinha qualquer parentesco com ela. Havia ocasies em que fingia at que no estava ali.
- Como posso ganhar a vida e ainda por cima sustentar uma menina de doze anos? Deviam estar me oferecendo medalhas, em vez de me ameaarem.
A maneira que mame encontrara para ganhar a vida era trabalhar como garonete num bar ordinrio chamado Charlie Boy's, em Newburgh, estado de Nova York. Havia noites 
em que no voltava para casa antes das quatro da madrugada, muito depois do bar ter fechado. Se no estava de porre, vinha alta de alguma outra coisa. Cambaleava 
por nosso apartamento de apenas um quarto, esbarrando nos mveis, derrubando coisas.
Eu dormia num sof-cama na sala. Por isso, geralmente acordava e ouvia a barulheira. Mas sempre fingia que continuava dormindo. Detestava falar com mame quando 
ela se encontrava naquele estado. As vezes podia farej-la antes de ouvi-la. Era como se ela tivesse encharcado as roupas de usque e cerveja.
Mame parecia muito mais velha do que os seus trinta e um anos. Tinha olheiras permanentes, rugas que pareciam ter sido traadas com um lpis escuro nos cantos dos 
olhos. A pele cremosa era agora amarelada e sem lustro, os cabelos outrora sedosos mais pareciam um esfrego feito com fios de piano. Tinham mechas grisalhas prematuras 
que sempre me davam a impresso de sujos e sebosos.
Ela fumava e bebia. Parecia no se importar com o homem com quem saa, desde que ele estivesse disposto a pagar pelo que ela queria. Parei de registrar seus nomes. 
Os rostos comeavam a se fundir em um s, com olhos vermelhos me espiando num vago interesse. De um modo geral, eu era uma surpresa para eles.
"Nunca me disse que tinha uma filha", comentava a maioria.
Mame dava de ombros e respondia:
"No falei? Pois tenho. Por acaso isso o incomoda?  um problema para voc?"
Alguns no diziam nada; alguns diziam no, ou sacudiam a cabea e riam.
"Acho que o problema  seu", declarou um homem.
Foi o suficiente para lanar mame numa longa tirada sobre meu pai.
Quase nunca falvamos sobre ele. Mame se limitava a dizer que era um lindo latino,- mas uma decepo em matria de assumir suas responsabilidades.
- Como a maioria dos homens - advertiu ela.
Ela me fez acreditar que as promessas de meu verdadeiro pai eram como o arco-ris: maravilhosas enquanto persistiam no ar, mas logo esmaecendo at se tornarem apenas 
vagas lembranas. E nunca havia um pote com ouro no final do arco-ris! Ele nunca voltaria e nunca nos mandaria coisa alguma.
Desde que eu podia me lembrar, vivamos naquele pequeno apartamento, num prdio que dava a impresso de que poderia ser derrubado por um vento mais forte. As paredes 
nos corredores eram rachadas e esburacadas, como se alguma criatura enlouquecida tivesse tentado escavar uma sada. As paredes externas eram cobertas de grafites, 
as caladas to arrebentadas que em muitos pontos havia apenas terra onde antes existia cimento. O pequeno gramado entre o prdio e a rua se degradara h muitos 
anos. O que restava de relva era de um verde claro e doentio, com tanto lixo espalhado que no dava para passar um cortador de grama.
As pias em nosso apartamento sempre nos criavam problemas, as torneiras pingando, os ralos entupidos. Eu no podia nem contar quantas vezes a latrina j transbordara. 
O ralo da banheira era cercado de ferrugem, o chuveiro pingava, e a gua quente em geral acabava antes que eu terminasse de lavar os cabelos. Sei que havia muitos 
camundongos, porque vivia encontrando os excrementos em gavetas, debaixo das cmodas e mesas. s vezes podia ouvi-los correndo de um lado para o outro. Poucas vezes 
cheguei a avistar um, antes que corresse para se esconder embaixo de algum mvel. Pusemos ratoeiras e pegamos alguns, mas para cada um que morria surgiam dez para 
tomar o seu lugar.
Mame sempre prometia sair de l. Um novo apartamento era sempre uma perspectiva iminente, assim que ela ganhasse mais cem dlares necessrios para o depsito. Mas 
eu sabia que se ela ganhasse algum dinheiro extra, gastaria em usque, cerveja ou maconha. Um de seus namorados introduziu-a na cocana. Ela a
consumia de vez em quando, mas em geral no tinha dinheiro suficiente para comprar.
Tnhamos um aparelho de televiso que perdia a imagem com freqncia. s vezes eu conseguia recuper-la, batendo com fora nos lados. Mame recebia de vez em quando 
um cheque do servio de assistncia social. Jamais entendi por que isso acontecia ou deixava de acontecer. Ela criticava o sistema e queixava-se quando no havia 
um cheque. Se era eu quem o recebia, tratava de descont-lo, comprava boas comidas e algumas roupas para mim. Se no era, mame escondia e me dava algum dinheiro 
em conta-gotas. Tinha de me arrumar com isso.
Sabia que outros da minha idade roubavam o que no podiam comprar, mas no era o meu caso. Havia uma garota em meu prdio, Lila Thomas, que incursionava pelos shoppings 
nos fins de semana, junto com algumas garotas do outro lado da cidade. J fora surpreendida furtando numa loja, mas parecia no ter medo de ser apanhada de novo. 
Zombava de mim durante todo o tempo porque eu no a acompanhava. Chamava-me de "defensora da honra dos escoteiros", e dizia a todo mundo que eu acabaria vendendo 
biscoitos para viver.
No me importava de no ter uma amiga ntima. Na maior parte do tempo, sentia-me feliz por ficar sozinha, lendo uma revista ou assistindo a uma novela, sempre que 
conseguia pr a televiso para funcionar. Tentava no pensar em mame dormindo at tarde, talvez com um novo homem no quarto. Podia olhar atravs das pessoas, fingir 
que nem estavam ali.
-  melhor voc ir  escola amanh, Raven. No preciso de agentes do governo vindo aqui me bisbilhotar. - Ela afastou os cabelos do rosto. - Est me ouvindo?
- Estou.
Mame bebeu mais um pouco de cerveja. Eram apenas nove e quinze da manh. Eu detestava o gosto de cerveja em qualquer ocasio, mas s em pensar beb-la to cedo 
me deixava de estmago embrulhado. Ela compreendeu de repente que dia era e que eu deveria estar na escola. Arregalou os olhos.
- Por que ficou em casa hoje?
- Tive dor na barriga. Estou ficando menstruada. Foi o que a enfermeira me disse na escola, quando senti clicas e deixei a sala.
- Seja bem-vinda ao inferno. Vai compreender em breve por que os pais agradecem por terem um menino. Os homens tm uma vida muito mais fcil.  melhor voc tomar 
cuidado agora.
Mame fez a advertncia me apontando o gargalo da garrafa.
- O que est querendo dizer com isso?
- O que estou querendo dizer com isso? - arremedou ela. - Se voc ficar menstruada, pode engravidar, Raven, e eu no vou cuidar do beb, de jeito nenhum.
- No vou engravidar, mame. Ela soltou uma risada.
- Foi o que eu disse... e veja o que aconteceu.
- Por que ento me teve? - indaguei, irritada.
J me cansara de ouvir que era um fardo. No era. Ao contrrio, era eu quem mantinha o apartamento habitvel, limpava tudo depois de seus ataques de embriaguez, 
lavava a loua, as roupas, limpava o cho do banheiro. Era eu quem comprava comida e cozinhava na maior parte das vezes. Havia ocasies em que ela trazia comida 
do restaurante, quando se lembrava, mas em geral estava fria e gordurosa quando chegava no apartamento.
- Por que eu tive voc? Por que eu tive voc?
Mame parecia atordoada, como se a pergunta fosse muito difcil de responder. Mas seu rosto logo se animou com a raiva.
- Vou explicar. Porque seu pai, um latino machista, prometeu que nos daria um lar. Tinha certeza de que seria um menino. Como poderia no ter um menino? No o Mister 
Macho. E quando voc nasceu...
- O que aconteceu?
Persuadi-la a me contar qualquer coisa sobre meu pai, ou como era sua vida naquele tempo, era to difcil quanto descobrir os maiores segredos do governo.
- Ele fugiu. Assim que viu voc, fez uma careta horrvel e disse: " uma menina? Ento no pode ser minha." E fugiu. No tive notcias dele desde ento. - Mame 
ficou pensativa por um momento, depois tornou a me fitar nos olhos. - Que isso sirva como uma lio para voc sobre os homens.
"Que lio?", perguntei-me. Como ela achava que eu me sentia ao descobrir que meu pai no suportara me ver, que meu nascimento o afugentara? Como achava que eu me 
sentia ao ouvir todos os dias que nunca eu pedira para nascer? s vezes ela me chamava de sua punio. Eu era a maneira que Deus escolhera para castig-la; mas o 
que considerava como seu pecado? No beber, consumir drogas ou ser uma vagabunda... nada disso. Seu pecado era confiar num homem. Ela estava certa? Era assim que 
todos os homens se comportavam? A maioria das amigas de mame concordava com ela sobre os homens. Muitas das minhas amigas, criadas em lares no muito melhores do 
que o meu, tinham idias similares, ensinadas por suas prprias mes.
Eu me sentia mais sozinha do que nunca. Ficar mais velha, desenvolver-me como uma mulher, parecendo ter mais idade do que tinha, tudo isso no me fazia sentir mais 
independente e mais forte. Afinal, lembrava-me de que no podia contar com mais ningum a no ser eu mesma. Tinha muitas dvidas. No eram poucas as coisas que me 
perturbavam, coisas que uma garota gostaria de perguntar  sua me. Mas eu tinha medo de perguntar  minha. E, de qualquer maneira, achava que na maior parte do 
tempo ela no era capaz de pensar com lucidez suficiente para respond-las.
- Voc tem o que precisa? - perguntou ela, largando a garrafa de cerveja vazia na lata do lixo.
- Como assim?
- Alguma coisa para usar como proteo. A tal enfermeira da escola no disse do que voc precisava?
- Disse, mame. E tenho o que preciso. S que eu no tinha.
Pois o que eu precisava mesmo era de uma me de verdade e um pai de verdade, para comear... mas isso era uma coisa que eu s veria na televiso.
- No quero ser avisada de que voc no foi  escola, Raven. Se isso acontecer, vou falar com o seu tio Reuben.
Ela costumava usar seu irmo como uma ameaa. Sabia que eu jamais gostara dele, que nunca me sentira bem em sua presena. Tinha a impresso de que seus prprios 
filhos no gostavam dele; e sabia que tia Clara sentia medo dele. Dava para perceber em seus olhos.
Mame foi para o quarto e voltou a dormir. Sentei junto da janela e olhei para a rua. Nosso apartamento era no terceiro andar. No tinha elevador, apenas uma escada 
que parecia prestes a desabar, especialmente quando as crianas desciam correndo, ou quando o sr. Winecoup subia. Era o homem que morava no andar de cima. Pesava 
no mnimo cento e trinta quilos. O teto tremia quando ele andava de um lado para o outro em seu apartamento.
Olhei alm da rua, para as montanhas a distncia.
Pensei no que haveria no outro lado. Sonhava em fugir para encontrar um lugar em que o sol sempre brilhava, onde as casas eram limpas e tinham um cheiro agradvel, 
onde os pais riam e amavam seus filhos, onde havia pais que se importavam e mes mais dedicadas.
"Voc est pensando em viver na Disneylndia", disse-me uma voz. "Pare de sonhar."
Levantei-me e iniciei meu dia de solido, procurando alguma coisa para comer, assistindo  televiso, esperando mame acordar para podermos conversar sobre o jantar, 
antes de sua sada para o trabalho. Quando estava descansada e sbria, ela podia sentar diante do espelho para maquiar-se. Ajeitava o rosto e os cabelos para proporcionar 
aos outros a iluso de que era saudvel e ainda atraente. Enquanto se maquiava, mame discorria sobre sua vida e o que poderia ter sido, se no tivesse se apaixonado 
pelo primeiro homem bonito que conhecera e acreditado em suas mentiras.
Eu tentava interrog-la sobre sua juventude, mas ela detestava responder a perguntas sobre a famlia. Os pais praticamente a repudiaram. Sara de casa quando tinha 
dezoito anos, mas no realizara nenhum de seus sonhos. A coisa mais importante e mais emocionante em sua vida fora o pequeno flerte com a profisso de modelo. O 
gerente de uma loja de departamentos a contratara para ser modelo na seo feminina.
- Mas acabei pedindo demisso, porque ele queria favores sexuais - declarou mame.
E, mais uma vez, ela se lanou a um dos seus discursos sobre os homens.
- Se odeia tanto os homens, mame, por que sai com um quase todas as noites?
- No banque a espertinha, Raven. - Ela pensou por um momento, depois deu de ombros. - Tenho o direito de me divertir um pouco, no acha? Afinal, trabalho demais. 
Gosto que os homens me levem para um programa e gastem algum dinheiro comigo.
- No quer conhecer algum homem correto, mame? No gostaria de casar de novo?
Ela se contemplou no espelho. Os olhos se entristeceram por um instante, mas na mesma hora ela assumiu uma expresso furiosa e virou-se bruscamente para mim.
- No! Nunca mais quero ter um homem mandando em mim. Alm do mais, nunca fui casada. - Ela quase gritava agora. - Nunca tive um casamento, nem mesmo num tribunal.
- Mas pensei... meu pai...
- Ele era seu pai, mas no era meu marido. Apenas vivamos juntos.
Mame desviou os olhos.
- Mas tenho o sobrenome dele... Flores - balbuciei.
- Foi apenas para salvar a minha reputao. - Ela virou-se para mim, com um sorriso frio. - Pode escolher o nome que quiser.
Eu me sentia atordoada, o corao disparado. Nem sequer tinha um sobrenome?
Quando me postava diante do espelho, quem eu via? Ningum, pensei.
Era como se fosse invisvel, conclu. Voltei a me sentar junto da janela, observando as nuvens cinzentas turbilhonarem na direo das montanhas, na direo da promessa 
de uma vida melhor.
Uma promessa.
Era tudo o que eu tinha.
Um terrvel despertar

Despertei ao som de batidas, mas no sabia se era algum batendo em nossa porta. Havia sempre pessoas socando as paredes do prdio durante todo o tempo, de dia e 
de noite. As batidas foram se tornando mais fortes, mais frenticas, at que ouvi a voz do meu tio Reuben:
- Raven! Acorde logo! Raven!
Ele batia na porta com tanta violncia que pensei que ia arrebent-la. Peguei meu roupo e me levantei.
- Mame! - chamei.
Esfreguei os olhos para afugentar o sono, escutando. Tinha a impresso de que a ouvira chegar em casa, mas as noites eram to misturadas e confusas em minha mente 
que no podia ter certeza. Fui at o quarto e olhei. Mame no estava l.
- Raven! Acorde!
- J vou!
Encaminhei-me apressada para a porta. Quando puxei a tranca, ele empurrou a porta com tanta fora que quase me derrubou.
- O que aconteceu? - perguntei.
Tnhamos uma pequena lmpada acesa no corredor, que transformava as paredes escuras e sujas num marrom da cor de um saco de papel molhado. Havia claridade suficiente 
por trs de tio Reuben para delinear seu corpo atarracado, de um metro e noventa de altura. Ele pairava na porta como alguma ave de rapina. O silncio que se seguiu 
s suas batidas e chamadas urgentes me deixou ainda mais assustada. Tio Reuben parecia ofegar para recuperar o flego, como se tivesse subido a escada correndo.
- O que voc quer? - perguntei.
- Pegue algumas roupas. Vai embora comigo.
- Por qu?
Recuei, passando os braos em torno do meu corpo. Detestaria ir a qualquer lugar com ele em plena luz do dia, ainda mais  noite.
- Vista-se depressa, Raven.
Encontrei o interruptor e acendi a luz da cozinha. A claridade revelou um rosto vermelho, inchado e suado, as partes salientes das faces parecendo em carne viva. 
Usava uma camiseta imunda e um jeans seboso. Embora ocupasse agora um cargo administrativo no departamento rodovirio, ainda conservava o corpo musculoso que desenvolvera 
como operrio. Os cabelos castanho-escuros eram bem curtos, cortados  escovinha, fazendo as orelhas parecerem com as asas na cabea de Mercrio. Eu costumava me 
perguntar como mame e tio Reuben podiam ser irmos. As feies dele eram grandes e pronunciadas. A nica semelhana entre os dois eram os olhos.
- O que aconteceu? Por que est aqui?
- No  porque eu queira, pode ter certeza. - Ele foi at a pia para despejar gua num copo. - Sua me est na cadeia.
- O qu?
Tive de esperar que tio Reuben tomasse a gua. Ele largou o copo na pia, como se esperasse que a criada o lavasse depois, e virou-se para mim. Por um momento, apenas 
me fitou. Seu olhar me deixou com a sensao de que um vento frio entrava por baixo do meu roupo. Cheguei a estremecer.
- Por que mame est na cadeia?
- Ela foi apanhada com um traficante. E desta vez o problema  srio. Voc ter de morar conosco por algum tempo, talvez para sempre.
Ele disse isso e deu uma cusparada na pia.
- Morar com vocs? Senti meu corao parar.
- Pode ter certeza de que no me sinto nem um pouco feliz com isso. Foi ela que me pediu para vir busc-la.
Tio Reuben falava com bvia relutncia. Era como se sua boca tivesse de fazer um grande esforo para abrir e fechar, pronunciar as palavras. Ele correu os olhos 
pelo pequeno apartamento.
- Que chiqueiro! Como algum pode viver aqui? Antes que eu pudesse responder, ele tornou a se virar para mim.
- Pegue logo as suas coisas. No quero continuar aqui um instante a mais que o necessrio.
- Quanto tempo ela vai ficar na cadeia? - perguntei, as lgrimas comeando a arder por trs das plpebras.
- No sei. Talvez anos - disse ele, sem qualquer emoo. - Ela ainda estava sob liberdade condicional daquela ltima condenao. Tenho de ir trabalhar daqui a poucas 
horas. Ande logo.
- Por que no posso ficar aqui?
- Pelo simples motivo de que o tribunal no vai permitir. Pensei que era uma garota inteligente. Se no vier comigo, ser internada num orfanato.
Por um longo momento, considerei a opo. Estaria melhor com estranhos do que com o meu tio.
- E por outro motivo: prometi  sua me. - Ele estudou meu rosto por um instante e ofereceu um sorriso frio. - Sei o que est pensando. Tambm fiquei surpreso por 
ela se importar.
Minha respirao ficou presa na garganta. Tive de me virar para que tio Reuben no visse minhas lgrimas escapando e escorrendo pelas faces. Fui para o quarto e 
abri as gavetas da cmoda, a fim de pegar as minhas roupas. A nica mala que eu tinha era pequena e precisava ser amarrada com cintos para fechar. Encontrei-a no 
fundo do armrio e comecei a arrumar minhas coisas. Tio Reuben parou na porta e correu os olhos pelo quarto.
- Esse lugar fede demais - murmurou ele. Continuei arrumando minhas coisas. No sabia por quanto tempo moraria com ele e tia Clara, mas no queria ficar sem meias 
nem calcinhas.
- No precisa de tudo isso - disse ele, quando fui pegar mais roupas no armrio. - No quero baratas na minha casa. Leve apenas o bsico.
- Tudo o que tenho  o bsico, algumas blusas e jeans, dois vestidos. E no tenho baratas nas minhas roupas.
Ele soltou um grunhido. Jamais gostei de tio Reuben. Era um homem cheio de preconceitos, sempre dizendo a mame que seus problemas comearam porque ela se envolvera 
com um cubano. Gostava de se mostrar superior a ns porque fora promovido e usava um terno para trabalhar.
Eu tinha dois primos, William, de nove anos, e Jennifer, de quatorze. William era um menino dcil e retrado, que tambm gostava, como eu, de ficar sozinho. Falava 
muito pouco. Uma ocasio eu ouvira tia Clara comentar que muitos na escola pensavam que ele era autista. Jennifer era muito convencida. Tinha um jeito de empinar 
o nariz que fazia todos sentirem que se julgava superior. Quando eu tinha cinco anos, ficara to revoltada com ela que pisara com toda fora em seu p, quase lhe 
quebrando um dedo.
Terminei de arrumar minhas coisas, peguei um jeans e um suter. Tio Reuben continuava me observando. Passei por ele e fui me vestir no banheiro. Quando sa, ele 
estava me esperando na porta do apartamento, segurando a mala.
- Vamos embora, Raven. Tenho a sensao de que vou pegar alguma doena aqui.
Ele, tia Clara e meus primos moravam numa boa casa de dois andares. Mame e eu no amos l com freqncia, mas eu sempre invejara o quintal, os mveis de boa qualidade 
e os banheiros limpos. William e Jennifer tinham quartos separados. A casa ficava numa pequena comunidade, distante da cidade. O que significava que eu teria de 
estudar em outra escola.
- Onde vou dormir? - perguntei a tio Reuben, enquanto calava os tnis.
- Clara est arrumando a sala de costura para voc. H um sof-cama l. Veremos o que fazer depois. Agora vamos embora.
- Tenho que deixar tudo? - indaguei, correndo os olhos pelo apartamento.
- O que h para deixar? Pratos velhos, mveis de segunda mo, ratos? Eu nem me daria ao trabalho de trancar a porta.
Ele comeou a descer a escada. Parei na porta do apartamento. Tio Reuben tinha razo. No passava de um buraco na parede, sujo e velho, podre em alguns lugares... 
mas fora o meu lar para mim. Por muito tempo, aquelas paredes haviam sido o meu pequeno mundo. Sempre sonhara em sair dali, mas agora que o fazia no podia deixar 
de sentir medo e alguma tristeza.
- Raven! - gritou tio Reuben no sop da escada.
- Cale essa boca! - berrou algum. - H pessoas aqui querendo dormir!
Fechei a porta e desci apressada. Samos para as ruas vazias. Ainda estava escuro. O resto do mundo dormia. Ele guardou minha bagagem na mala do seu carro e embarcou. 
Sentei ao seu lado. Olhei pela janela para o prdio de apartamentos, sonolenta. Apenas uma das trs lmpadas na entrada estava acesa. As sombras encobriam a tinta 
lascada e desbotada, as janelas quebradas do poro.
- Teve sorte de eu morar bastante perto para vir busc-la, Raven - disse ele. - Seno acabaria indo para algum orfanato.
- No sou uma rf.
-  pior do que isso. rfos no tm uma me como a sua.
- Como pode falar assim de sua irm?
Por pior que fosse mame, eu no podia ficar sentada ali de boca fechada enquanto ele arrasava com ela.
- Muito fcil. No  a primeira vez que sa de casa de madrugada para salv-la ou pagar-lhe a fiana, no ? S que agora ela foi longe demais. Cansei. Ela  um 
caso perdido.
Tio Reuben olhou para mim, apontou o indicador direito, grosso e comprido, para meu rosto, sem parar de guiar, enquanto acrescentava:
- E vou lhe dar um aviso desde o comeo. No quero que corrompa meus filhos, est me ouvindo? A primeira vez que levar a desgraa para a minha casa ser a ltima. 
Pode ter certeza.
Enrosquei-me to longe dele quanto possvel e fechei os olhos.  um pesadelo, pensei, apenas um pesadelo. Daqui a pouco vou acordar e me descobrir no sof-cama da 
sala do nosso apartamento. Talvez escute mame cambaleando de um lado para o outro. Subitamente, isso j no parecia to ruim.
Seguimos em silncio durante a maior parte do resto do caminho. De vez em quando tio Reuben murmurava algum palavro ou se queixava de ter sido arrancado de um sono 
profundo pela irm bbada e imprestvel.
- Devia haver uma maneira de se repudiar os parentes - resmungou ele -, entrar num tribunal e se declarar uma alma independente, a fim de que no possam procur-lo 
ou arruinar sua vida.
Fiz um esforo para ignor-lo. Voltei a dormir. Abri os olhos quando paramos na frente de sua casa. Havia luzes acesas no primeiro andar. Ele saltou e abriu a mala 
do carro. Quase arrebentou minha mala quando a tirou. Segui-o para a porta da frente. Tia Clara abriu-a antes de chegarmos l.
Tia Clara era um mistrio para mim. No havia duas pessoas to diferentes do que ela e tio Reuben. Era uma mulher pequena, frgil, delicada, de voz baixa. Seu rosto 
em geral irradiava compaixo e preocupao. At onde eu podia saber, nunca nos desdenhara ou dissera coisas ruins a nosso respeito, no importava o que mame fizesse. 
Mame gostava dela; e, ironicamente, dizia que sentia mais pena de tia Clara do que de si mesma.
- Viver com meu irmo  um fardo muito maior - comentava ela.
Tia Clara tinha cabelos castanho-claros, sempre bem cortados, por cima das orelhas. Usava pouca maquilagem, mas o rosto era em geral brilhante e animado, por causa 
do azul profundo nos olhos afetuosos e do sorriso suave nos lbios pequenos. Era apenas uns poucos centmetros mais alta do que eu. Quando ficava ao lado de tio 
Reuben, podia passar por uma de suas crianas.
Esperava por ns com as mos cruzadas e comprimidas contra os seios pequenos.
- Minha pobre criana... - murmurou ela. - Vamos, entre logo.
-  mesmo uma pobre criana - resmungou tio Reuben. - Devia ver o apartamento. Como uma mulher adulta pode viver num lugar como aquele... e ainda por cima com a 
filha?
- Ela saiu de l agora, Reuben.
-  verdade. E agora vou me deitar. Algumas pessoas precisam trabalhar para ganhar a vida.
Ele entrou na casa e subiu a pequena escada. O corrimo tremia sob seu punho enquanto ele se puxava pelos degraus. Largara minha mala na entrada.
- Quer tomar uma xcara de leite quente, Raven? - perguntou tia Clara.
- No, obrigada.
- Imagino que tambm est cansada.  uma coisa terrvel para todos. Venha comigo. J arrumei a sala de costura para voc.
A sala de costura era no primeiro andar, ao lado da sala de estar. No era grande, mas tinha um papel de parede bonito, cheio de flores, um tapete cinza-claro, uma 
mesa com uma mquina de costura, uma cadeira e o sof-cama. Tinha uma janela grande, com uma cortina de algodo branca, virada para o lado leste. Assim, o sol a 
iluminaria pela manh. Havia nas paredes alguns bordados emoldurados de tia Clara. Eram cenas de casas de fazenda e animais, alm de uma mulher e uma menina sentadas 
ao lado de um regato.
- Sabe onde fica o banheiro; no final do corredor - disse ela. - Eu gostaria de ter outro quarto, mas...
- Est timo, tia Clara. Detesto ocupar sua sala de costura.
- No tem importncia. Posso fazer tudo em outro lugar. No se preocupe mais com isso, criana. Amanh, voc vai apenas descansar. Antes do dia terminar, talvez 
possamos ir  escola para matricul-la. No queremos que fique muito atrasada nos estudos.
No quis contar a ela que j estava muito atrasada.
- Ali est uma escova de dentes nova - informou ela, apontando para a mesa. - Ganhei na ltima vez em que fui ao dentista.
- Obrigada, tia Clara.
Ela me fitou em silncio por um momento, depois balanou a cabea e afagou meus cabelos.
- As coisas que fazemos com nossos filhos...
Tia Clara me deu um beijo na testa e subiu. Fiquei parada ali por algum tempo. Para tia Clara, aquela sala no era grande coisa; para mim, no entanto, era melhor 
que um hotel de luxo. A casa recendia a limpeza. Era silenciosa, sem rangidos, sem vozes soando atravs das paredes, sem passos fazendo o teto tremer.
Tirei as roupas e deitei sob o edredom limpo. O sof-cama era mais firme do que o nosso, o travesseiro macio. Sentia-me to confortvel e to cansada que esqueci 
por um momento que mame estava na cadeia. Exausta, assustada e confusa, no tinha condies de pensar direito. Fechei os olhos.
Tornei a abri-los quando senti que algum me observava. J era de manh. A luz do sol entrava pela janela. Eu esquecera onde estava e sentei-me abruptamente. Deparei 
com William parado ali, olhando para mim.
- Mame diz que voc vai morar conosco agora - murmurou ele, falando bem devagar.
Esfreguei o rosto com as palmas e respirei fundo, enquanto tudo tornava a aflorar em minha mente.
- William, tire o rabo da agora mesmo e venha terminar de comer! - gritou tio Reuben.
William ainda hesitou, mas logo saiu apressado. Recostei a cabea no travesseiro, olhando para o teto.
- Sua me est na cadeia - ouvi Jennifer dizer da porta.
Virei-me para fit-la. Seus cabelos castanho-claros estavam presos atrs da cabea com uma fita. Era uma garota alta, com uma estrutura ssea larga, que a fazia 
parecer mais corpulenta do que era. As feies de tia Clara eram ofuscadas pelo que ela herdara de tio Reuben. O nariz de Jennifer era mais largo e mais longo, assim 
como a boca. Os olhos eram de tia Clara, mas pareciam deslocados num rosto to grande. Ela era tambm mais larga na cintura. Mas tio Reuben a tratava como se fosse 
uma beleza deslumbrante. Nunca houve qualquer dvida em minha mente de que ele a preferia, em detrimento de William. Afinal, William era pequeno e frgil, muito 
parecido com tia Clara.
-  o que seu pai disse - murmurei.
- Ele no mentiria sobre isso, no ? Que coisa embaraosa! E agora, ainda por cima, voc vai estudar na minha escola.
- No quero.
- S peo que no conte a ningum o que aconteceu com sua me. Inventaremos uma histria.
- Que histria?
Ela pensou por um momento, depois sorriu.
- J sei. Diremos que ela morreu.
Pesadelo de Cinderela

voc pensa que ? Uma princesa? - berrou tio Reuben da porta. - Todo mundo j levantou e tomou o caf da manh. Clara no vai ficar esperando por voc.
- Eu j ia me levantar - respondi. - No sabia que era to tarde. No h relgio aqui... e no tenho um.
- No tem um relgio? Vou providenciar. Essas desculpas no funcionam aqui.
- No  uma desculpa.  a verdade.
Ele estava parado na porta, com as mos nos quadris. Lanou um olhar pelo corredor e entrou na sala de costura.
- Vamos fixar algumas regras. Primeiro, daqui por diante voc levanta antes de todo mundo. Pe a mesa e faz o caf. Antes de sair para a escola, tire a mesa e guarde 
toda a loua e os talheres. Ao voltar da escola, espero que ajude Clara. Quero v-la limpando a casa, lavando as janelas, encerando o cho. Vai ajudar tambm com 
a roupa suja. No vai ter uma estada de graa aqui s porque sua me  uma fracassada. Entendido?
Fitei-o com uma expresso furiosa.
- Quando fao uma pergunta, espero uma resposta. Voc precisa de disciplina.  como um animal selvagem, vivendo naquele buraco, com a bbada da minha irm. Mas tudo 
isso termina hoje, entendeu?
- Eu no vivia como um animal selvagem. Ele sorriu.
- Parece que vou acabar me tornando seu tutor legal. O que significa que dever me obedecer. E vou avisando desde j, Raven: no hesito em dar uma surra e no suporto 
criana mimada. Entendido?
Ele levantou a mo enorme. A palma parecia to grande quanto um remo.
- Entendido.
Tio Reuben parara quase em cima de mim, o rosto vermelho de fria. No tive a menor dvida de que ele me bateria se achasse conveniente. E senti medo.
- Raven... - murmurou ele, contraindo os lbios. - Como se pode dar um nome assim a uma garota?
- Gosto do meu nome.
Tio Reuben podia ser assustador, mas eu ainda tinha meu orgulho. Ele continuou parado por mais um longo momento, olhando para mim. Puxei o edredom para os ombros, 
mas experimentei a sensao de que ele podia ver atravs.
- Sei que voc est crescendo e depressa, Raven. Lembro o que aconteceu com sua me, como ela era quando os meninos comearam a observ-la.  melhor voc no seguir 
pelo mesmo caminho. No quero que corrompa minha Jennifer. Entendido?
Virei o rosto, as lgrimas em meus olhos tornando impossvel fit-lo por mais tempo. Eu no era uma doena. No contagiaria a sua preciosa Jennifer.
Ele soltou um grunhido e se retirou. Pude ouvi-lo repetindo para tia Clara o que me dissera, quais seriam minhas tarefas. Ela no discutiu. Pouco depois, ouvi-o 
sair, com Jennifer e William. Esperei mais um tempo e me levantei.
- Est com fome, querida? - perguntou tia Clara, quando fui para o banheiro.
- S um pouco.
- O caf ainda est quente. Posso fazer ovos mexidos, se quiser, at um mingau de aveia.
- Pode deixar que cuidarei de mim mesma, tia Clara. Por favor, no pense que ter de me servir.
- No se preocupe com isso.
Depois de me lavar e vestir, servi-me de um pouco de cereal frio num prato. Tia Clara me ofereceu um copo com suco de laranja. Sentou comigo, enquanto eu comia.
- O latido de Reuben  pior do que a mordida - comentou ela, tentando me tranqilizar. - Ele apenas ficou meio perturbado com a surpresa. No se preocupe com todas 
as ordens que ele d.
- No me importo de ajudar. Afinal, eu fazia quase tudo em casa.
- Posso imaginar.
Tia Clara balanou a cabea e tomou um gole de caf.
- O que vai acontecer com minha me, tia Clara? Ela vai mesmo passar muito tempo na priso?
- No sei. Reuben disse que eles podem lev-la para um programa de reabilitao de drogados. Mas teremos de esperar para ver. No  a primeira vez que ela se mete 
numa grande encrenca.
Reconheci o fato com um balano de cabea. No havia sentido em fingir que no era verdade, ou viver num mundo de sonho. Mame estava mesmo metida numa tremenda 
encrenca. O que significava que a mesma coisa ocorria comigo. Quem queria morar com uma prima como Jennifer e um tio como tio Reuben? Eu preferia viver nas ruas.
- Pense apenas em descansar um pouco, querida - murmurou tia Clara. - Passou por um choque terrvel. Depois que eu arrumar a casa, podemos almoar. E logo em seguida 
eu a levarei  escola para fazer a matrcula. Est bom assim?
- Eu a ajudarei a arrumar a casa, tia Clara.  o que tio Reuben quer... e ajudar a manter a paz.
- Uma garota esperta, no ? - Ela sorriu e bateu de leve em minha mo. - Mas continue sentada aqui e termine de comer primeiro.
Tia Clara subiu a escada. Depois que acabei, tirei a mesa e lavei toda a loua. Fui me encontrar com ela no momento em que comeava a arrumar o quarto de Jennifer. 
Parei na porta, chocada com a baguna. Havia roupas espalhadas por toda parte, um prato com sobras de torta de ma no cho, ao lado da cama, onde o telefone tambm 
fora largado. Imaginei-a sentada ali, conversando com amigas e comendo a torta. Mas por que deixara o prato no cho? No se preocupava com camundongos e baratas?
A cama estava desarrumada. O banheiro que ela partilhava com William dava a impresso de que algum tivera de sair s pressas. Os potes de maquilagem estavam destampados, 
ainda havia gua suja na pia, um tubo de batom ao lado, a pasta de dentes aberta, um pouco escorrendo para o balco, a toalha de rosto pendurada na maaneta, revistas 
no cho, junto do vaso. A porta do boxe ficara aberta, havia uma toalha molhada no cho l dentro.
Tia Clara comeou a limpar sem fazer qualquer comentrio sobre a sujeira.
- Por que ela deixa o quarto e o banheiro desse jeito, tia Clara? Falar em viver num chiqueiro... Acho que tio Reuben no costuma ver as coisas aqui.
- Claro que ele v. - Tia Clara soltou um profundo suspiro. - Vivo brigando, mas Jennifer... Ela  um pouco mimada.
- Um pouco? Isto parece coisa de uma garota mimada demais.
Mas tratei de ajudar. Limpei o banheiro at deixlo impecvel. Lavei inclusive os espelhos, manchados de batom e maquilagem.
O quarto de William era mais organizado e mais limpo. O pior era a cama desarrumada. Assim que acabei, desci e arrumei a sala de costura. Endireitei o sofcama para 
no parecer mais com um quarto. Com minhas poucas coisas guardadas, ningum poderia imaginar que eu dormira ali.
- No precisa fazer isso todos os dias - comentou tia Clara. - Basta fechar a porta.
- Tenho certeza de que tio Reuben no gostaria nem um pouco se eu fizesse isso.
Ela no discutiu. Muito embora ele j tivesse sado, sua sombra parecia perdurar na casa. Pela maneira como tia Clara olhava para trs a todo instante, era quase 
como se acreditasse que a sombra contaria ao marido tudo o que conversvamos.
Depois que arrumamos os quartos, ela comeou a passar o aspirador na sala de estar. Dei um polimento em alguns mveis e limpei o cho da cozinha. Precisava me manter 
ocupada para no pensar em mame na cadeia.
- Voc no tem medo de trabalhar, Raven. Espero que alguns dos seus bons hbitos contagiem Jennifer - comentou ela, mas sem muito otimismo.
Tia Clara fez uma salada de galinha para o nosso almoo. Sentamos e conversamos. Eu no a conhecia direito. Ela descreveu onde fora criada, como conhecera tio Reuben. 
Disse que comeara a trabalhar no departamento de obras pblicas logo depois de se formar na escola secundria.
- Ele era como um Atlas trabalhando nas ruas. Tirava a camisa, deixava os msculos brilhando ao sol. No era to corpulento naquele tempo. - O tom era afetuoso. 
Tia Clara soltou uma risada. - Um dia ele fingiu ter de cuidar de uma obra bem na frente da casa dos meus pais, s para me visitar. Casamos cerca de quatro meses 
depois. Minha me esperava que pelo menos eu cursasse uma escola de secretariado, mas os jovens costumam ser impulsivos.
Ela se calou por um longo momento, pensativa. Depois, sacudiu a cabea e afagou minha mo.
- No se jogue nos braos do primeiro homem que encontrar, querida. Trate de recuar, escute a cabea em vez do corao, demore todo o tempo que precisar para tomar 
uma deciso.
Parecia-me que todas as mulheres me davam o mesmo conselho. J comeava a acreditar que o amor era uma armadilha que os homens preparavam para mulheres inocentes. 
Diziam o que queramos ouvir. Escreviam promessas com letras de ouro. Povoavam nossa cabea com sonhos, faziam com que tudo parecesse fcil. Depois de se satisfazerem, 
iam embora e montavam uma nova armadilha para outra inocente. At mesmo tia Clara, que casara com seu jovem namorado, descobrira que fora apanhada numa armadilha. 
Tio Reuben dominava sua casa como um ogro, transformava-a numa criada de luxo, em vez de coloc-la num pedestal, como eu tinha certeza que ele prometera. Ela se 
limitava a balanar a cabea e seguia pelos dias como um rato preso num labirinto.
Depois do almoo, ela pegou o carro e me levou  escola. Era menor e parecia mais sossegada do que a minha. O diretor, sr. Moore, um homem corpulento e de pescoo 
grosso, em torno dos quarenta anos, convidou-nos para sentar em sua sala. Ouviu o relato de tia Clara, depois chamou a secretria e ditou algumas ordens.
- Quero que entre em contato com a escola anterior dela, fale com a orientadora, pea que sua ficha seja enviada para c, Martha, o mais depressa possvel - disse 
ele, impressionando-me pela facilidade com que assumia o comando. - Vamos precisar de instrues do juizado de menores sobre a situao da menina. Suponho que voc 
e seu marido sero os tutores legais.
- Isso mesmo - confirmou tia Clara.
- Ela vai se dar bem aqui. - O diretor olhou para mim. - Sei que no ser fcil para voc, mas deve considerar como ser para seus novos professores. Eles tm o 
fardo adicional de faz-la acompanhar o resto da turma. As matrias podem ser as mesmas, mas cada professor tem seu jeito de ensinar. Portanto, as diferenas so 
inevitveis. Alguns professores avanam pelo currculo mais depressa do que outros.
- Sei disso - murmurei.
Ele me fitou em silncio por um momento, com uma expresso preocupada, mas depois sorriu.
- Por outro lado, voc tem uma prima que j estuda aqui. Ela deve ser de grande ajuda. - O sr. Moore olhou para tia Clara. - Sua filha no  um ano mais velha do 
que Raven?
- , sim.
- No  uma diferena grande. Tenho certeza de que possuem interesses similares. Ela poder ajud-la a entender nossas normas e regulamentos. Trate de se comportar 
e nos daremos muito bem. Certo?
Balancei a cabea. O sr. Moore sugeriu que eu comeasse a assistir s aulas imediatamente.
- No h sentido em perder mais tempo. Ainda d para ela assistir s aulas de matemtica e estudos sociais. Pelo menos receber os livros dessas matrias.
-  uma boa idia - concordou tia Clara.
Um estudante que trabalhava como assistente da diretoria me levou  sala de aula e me apresentou ao professor de matemtica, sr. Finnerman, que me entregou um livro 
e me designou para a ltima carteira na primeira fila. Todos se viraram para mim, observando cada movimento meu. Recordei como me sentia interessada quando um novo 
aluno entrava na turma. Tinha certeza de que todos sentiam a mesma curiosidade.
Uma jovem negra, que se apresentou como Terri Johnson, levou-me at a sala de estudos sociais. No caminho, apresentou-me a vrios colegas, chamando-me de "a nova 
aluna". Ao nos aproximarmos da sala, avistei Jennifer andando pelo corredor, com duas amigas. No momento em que me viu, ela parou e soltou um gemido.
-  ela! - ouvi-a dizer para as amigas, ao passar por mim sem me cumprimentar.
Foi pior ainda quando a aula de estudos sociais acabou e tive de procurar o nibus escolar certo, que me levaria para casa. Jennifer j estava ali, sentada no fundo, 
com as amigas. Fingiu que no me conhecia. Sentei na frente e fiquei conversando com um rapaz magro e de cabelos escuros, chamado Clarence Dunsen. Ele gaguejava 
muito. O que o tornava tmido, mas tambm desconfiado. Depois de me dirigir a palavra, ele esperou para ver se eu zombaria. Olhei para Jennifer, cuja risada ressoava 
pelo nibus, mais alta do que qualquer outra.
Por favor, mame, pensei, tenha um bom comportamento, faa todas as promessas, at rasteje se for necessrio, mas saia da priso e me leve de volta para casa, para 
qualquer lugar, contanto que me tire daqui.
- Tenho notcias - anunciou tia Clara, assim que entramos em casa.
- O que aconteceu? - indaguei, apertando os livros contra meu peito com toda fora.
- Sua me no vai mais para a priso.
- Graas a Deus!
Eu j ia acrescentar: "E adeus para voc, Jennifer, sua presunosa e mimada", mas percebi que tia Clara no sorria.
- O que mais, tia Clara?
- Ela tem de se internar num centro de reabilitao de drogados. Pode passar um bom tempo ali, Raven. No querem nem permitir que ela telefone para voc enquanto 
o terapeuta no autorizar.
- Ahn... - balbuciei, arriando numa cadeira.
-  melhor do que poderia ser - comentou tia Clara.
-  demais. Tenho uma tia num centro de reabilitao de drogados. - Jennifer virou-se para mim, os olhos irradiando dio. -  melhor voc fazer o que eu falei e 
dizer a todo mundo que sua me morreu.
No respondi.
- No fale assim, Jennifer - interveio tia Clara. - E deve saber que sua prima me ajudou a limpar seu quarto. Veja se consegue mant-lo arrumado.
- Qual  o problema? Ela tem mesmo de arrumar a casa. Ouviu o que papai disse. Ela no vai viver  nossa custa?
- Jennifer! - gritou tia Clara. - Onde esto sua caridade e seu amor?
- Amor? Eu no a amo. J foi bastante difcil explicar quem ela era. Todos queriam saber por que ela  to escura. Tive de contar o que seu pai era.
- Jennifer!
- Voc no  melhor do que eu s porque sua pele  mais branca - protestei.- Claro que no - disse tia Clara. - Jennifer, nunca lhe ensinei essas coisas horrveis.
- No  justo, mame. Todos os meus amigos vo ficar pensando coisas sobre a nossa famlia agora. No  justo!
- Pare de falar assim ou contarei para seu pai.
- Pode contar - desafiou ela, com um sorriso, para depois subir a escada.
- No sei de onde ela tirou tanto rancor - murmurou tia Clara.
Fitei-a, aturdida. Ser que ela era to cega assim? Ou deliberadamente enterrava a cabea na areia? Era fcil perceber que Jennifer herdara todo o rancor e mesquinhez 
de tio Reuben.
- Sinto muito - acrescentou tia Clara.
- No se preocupe, tia Clara. Vou ficar muito bem, com ou sem a amizade de Jennifer.
A porta foi aberta e William entrou, em passos lentos. Olhou para mim com alguma timidez.
- Como foi seu dia na escola, William? - perguntou tia Clara.
Ele abriu seu caderno e tirou um teste de ortografia em que recebera um noventa.
- Mas isso  maravilhoso! Olhe s, Raven! Dei uma olhada.
- Meus parabns, William. Terei de pedir sua ajuda nos deveres de ortografia.
Ele assumiu uma expresso agradecida, mas pegou o teste de volta e tornou a guard-lo no caderno sem dizer nada.
- Quer um copo de leite e biscoitos, William? - perguntou tia Clara.
Ele sacudiu a cabea, tornou a me fitar, com a expresso mais prxima de um sorriso a que podia chegar, depois subiu apressado para seu quarto.
- Ele  muito tmido - murmurei, observando-o subir. - No sabia que era tanto assim. No tem amigos com quem costuma brincar depois das aulas?
Tia Clara balanou a cabea, desolada.
- Ele passa a maior parte do tempo sozinho. A orientadora da escola j me chamou para uma conversa. Os professores acham que ele  retrado demais. Todos dizem que 
nunca levanta a cabea durante as aulas. Mal fala com os colegas. Voc o viu. William mais parece uma tartaruga prestes a recolher a cabea para dentro do casco. 
No sei por qu.
Os olhos dela se encheram de lgrimas. Tive vontade de passar o brao em torno de seus ombros.
- Ele vai crescer e mudar, tia Clara.
Mas ela no sorriu. Apenas sacudiu a cabea.
- Alguma coisa no est certa, mas no sei o que . J o levei ao mdico. Ele  saudvel, quase nunca fica resfriado, mas... - A voz definhou. Depois de um longo 
momento, tia Clara virou-se para mim, ainda em lgrimas, e perguntou: - O que leva um menino a se comportar desse jeito?
Eu no sabia naquele momento. Mas logo descobriria o motivo. S que no seria capaz de encontrar as palavras certas para contar a ela.

O lar difcil

- Centro de reabilitao de drogados... - murmurou tio Reuben, enquanto mastigava o pedao de bife. Quando mame e eu comamos carne, era quase sempre sobras requentadas 
que ela trazia do Charlie's. -  um desperdcio de dinheiro do governo.
Ele parecia triturar as palavras amargas com os dentes, como fazia com a carne.
- No ser um desperdcio de dinheiro se puder ajud-la - murmurou tia Clara.
Tio Reuben parou de mastigar e fitou-a, furioso.
- Ajud-la? Nada pode ajud-la. Ela  um caso perdido. A melhor coisa seria trancafi-la e jogar a chave fora.
Jennifer riu. Levantei os olhos do meu prato para fit-la.
- Pare de me olhar desse jeito - queixou-se ela. -  falta de educao ficar olhando fixamente para as pessoas... no  isso mesmo, papai?
Tio Reuben olhou para mim e confirmou com a cabea.
- Claro que . Mas como ela poderia saber? Jennifer soltou outra risada. Depois, sorriu para mim. Minha carne tinha gosto de papelo, parecia entalar na garganta. 
Parei de comer e inclinei a cabea para trs.
- Gostaria que me dessem licena - murmurei.
- Nada disso. No vai sair desta mesa enquanto no acabar. - Tio Reuben apontou com a cabea para o meu prato. - No desperdiamos comida aqui.
Jennifer cortou seu bife e ps-se a mastigar, com um sorriso largo no rosto redondo, fingindo saborear ao mximo.
- Est uma delcia...
-  falta de educao falar com comida na boca - declarei no mesmo instante.
William levantou o rosto com um sorriso exultante nos olhos. Jennifer parou de mastigar e olhou para tio Reuben. Ele continuou a pegar batatas no prato e a enfilas 
na boca como se quisesse acabar em tempo recorde.
- Fiz uma torta de nozes, Reuben - interveio tia Clara. - Sua predileta.
Ele balanou a cabea como se no esperasse menos. Todos aqui so mimados, refleti.
- Tirei oitenta no meu teste de ingls, hoje - anunciou Jennifer.
- Fala srio? - disse tio Reuben. - Oitenta? Isso  timo.
- Tenho uma possibilidade de entrar no quadro de honra da turma se o sr. Finnerman me der uma boa nota em matemtica neste trimestre - gabou-se ela.
- Ouviu isso, Clara?  a minha garota deixando seu papai orgulhoso.
-  maravilhoso - concordou tia Clara. - William voltou para casa com um noventa em ortografia.
William olhou para o pai, mas tio Reuben continuou a mastigar, limitando-se a um ligeiro aceno de cabea.
- Acho que tenho de cuidar dos documentos de
Raven - disse ele, depois de um longo momento. - Foi tudo bem na escola?
- Foi, sim - respondeu tia Clara. - Ela est matriculada.
- Que tipo de notas voc costuma tirar, Raven? - perguntou ele.
- Passo em tudo - murmurei, desviando os olhos.
- Posso apostar. Sua me alguma vez perguntou como voc ia na escola?
- Claro que sim! - respondi, indignada, fazendo-o contrair os lbios. - Ela tinha de assinar meu boletim. Por isso, sempre via minhas notas.
- Nunca falsificou a assinatura dela? - perguntou Jennifer, com um sorriso capaz de congelar lava.
- Por qu?  isso o que voc faz?
- Claro que no. No preciso. Passo em tudo. E papai assina meus boletins. No , papai?
- Sempre. - Ele empurrou a cadeira para trs e levantou-se. - Se ela vai desperdiar comida, Clara, no lhe d tanto para comear. Dou o maior duro para ganhar dinheiro 
e pagar tudo.
Embora meu estmago protestasse, forcei-me a engolir o ltimo pedao de carne e mais uma garfada de ervilhas.
- Quero ver o noticirio. Pode me chamar quando o caf e a torta forem servidos.
Tio Reuben deixou a mesa para ligar a televiso. Meus olhos acompanharam-no por um instante. Depois, olhei para William, que me fitava com uma expresso compreensiva. 
Sorri para ele, e seu rosto se iluminou.
- Tenho de fazer meus deveres, mame. E no preciso fazer nada com a loua do jantar, no ? - Jennifer acenou com a cabea para mim. - Ela vai lavar tudo.
- Ainda assim voc deve ajudar, Jennifer.
- No posso. Ouviu o que papai disse. Ele quer que eu entre no quadro de honra. No quer que eu faa meus deveres?
- Claro que quero.
- Nesse caso, vou subir agora - disse Jennifer, levantando-se de um pulo. - Descerei mais tarde para comer uma fatia de torta.
Ela saiu da cozinha. Tia Clara balanou a cabea, desolada.
- Eu ajudo - murmurou William, comeando a tirar a mesa junto comigo.
Depois que acabamos, ele perguntou:
- Quer ver a casa de passarinhos que eu fiz?
Tia Clara sorriu para mim, feliz porque William comeava a sair um pouco de seu casco.
- Claro que quero - respondi.
- Est no meu quarto. Fiz sozinho.
Segui-o para seu quarto. Ele tirou a casa de passarinhos da prateleira. Era triangular, com espigas de milho secas presas no lado de fora.
- Colei todas - comentou ele, mostrando como as espigas estavam firmes.
Segurei a casa com todo cuidado.
-  maravilhosa, William. Deve ter demorado para construir uma casa assim do nada. Quanto tempo levou?
- Dois dias - respondeu ele, orgulhoso. - Assim que poupar dinheiro suficiente, vou comprar um binculo para poder observar os passarinhos que chegarem perto da 
minha casa. Sabe alguma coisa sobre passarinhos?
Sacudi a cabea. William foi at sua mesa para pegar uma enciclopdia de aves. Continha fotos coloridas das aves, seus habitats e indicaes do tipo de alimentos 
que comiam. Depois, ele me mostrou outro livro, que dava instrues para a construo de casas de passarinhos.- Esta  a prxima que quero construir - comentou ele, 
apontando para uma casa de dois andares.
-  linda. Tem certeza que pode construir isso?
- Claro - garantiu ele, confiante. - Eu a avisarei quando tiver o material. Poder observar a construo, se quiser.
- Obrigada.
William me ofereceu o melhor sorriso, que deixou seus olhos radiantes.
-  melhor eu comear meus deveres agora - murmurei.
Sa do quarto. Ao passar pelo quarto de Jennifer, que tinha a porta entreaberta, avistei-a enroscada no cho, falando ao telefone. Parei por um instante. Ela me 
fitou.
- O que est fazendo aqui? - indagou Jennifer, rspida. - Veio me espionar?
- Claro que no. Mas pensei que tinha subido para fazer seus deveres... ou freqenta algum curso novo de fofoca?
Desci a escada, o corao batendo forte. Ouvi-a bater a porta do quarto.
Como a sala de costura ficava to perto da cozinha, pude ouvir a conversa entre tio Reuben e tia Clara, enquanto ele tomava seu caf e comia a torta.
- No vamos sair por a gastando um bocado de dinheiro com roupas novas para ela. Quero ver se consigo arrumar alguma ajuda do governo. Acho que se voc aceita uma 
criana em sua casa, eles deveriam dar algum dinheiro para sustent-la.
- Ela precisa de coisas, Reuben - insistiu tia Clara, a voz baixa. - No quer voltar para verificar o que mais ela tem no apartamento?
- De que adiantaria? Teramos de fazer uma dedetizao.
- No podemos deix-la usar apenas o que ela trouxe.
- Est bem, est bem. Pode comprar algumas roupas para ela. Mas no quero que gaste muito dinheiro, Clara. Lembre-se que temos Jennifer, que precisa de roupas novas. 
Sabe como ela vem crescendo depressa.
- Talvez Jennifer possa partilhar algumas de suas roupas com ela - sugeriu tia Clara.
Ele soltou um grunhido, para depois acrescentar:
- Se isso acontecer, cuide para que Raven esteja muito limpa antes de vestir qualquer coisa de Jennifer.
- Ela  muito limpa, Reuben. Uma tima garota, apesar da vida que levava com sua irm.
- Veremos... - Ele se levantou. - Mande-a arrumar a cozinha antes de se deitar. Quero que ela aprecie tudo o que tem aqui.
- Ela aprecia.
Tio Reuben no disse mais nada. Ouvi-o voltar para a sala e ligar a televiso. Fui ajudar tia Clara.
- No precisa fazer isso, Raven - sussurrou ela. - No resta muita coisa. V cuidar dos seus deveres.
- No trouxe muitos deveres, tia Clara. Tenho de me reunir com os professores depois das aulas todos os dias, durante a prxima semana, para poder alcanar o resto 
da turma. Quando saberemos que dia mame poder falar comigo?
Ela balanou a cabea.
- No sei, querida. Reuben saber mais amanh.
- Ele devia ter dado mais importncia ao teste de ortografia de William - comentei. - E oitenta no  uma nota to boa assim.
Tia Clara fitou-me com algum medo nos olhos, murmurou uma concordncia cautelosa:
- Tambm acho. Tenho insistido com ele para passar mais tempo com William.
- No sei se isso ajudaria - murmurei, mais para mim mesma.
Se tia Clara ouviu, no respondeu. Ela ficou imvel de repente, como se visse um fantasma. Virei-me. Tio Reuben estava parado na porta.
- Ela deve fazer isso sozinha, Clara. Voc precisa descansar.
Os olhos de tio Reuben fixavam-se em mim.
- No resta mais nada para fazer, Reuben.
Ele continuava a me fitar. Teria ouvido meu comentrio?
- Est bem, Reuben - acrescentou tia Clara. - J estou indo.
Ela enxugou as mos numa toalha de prato e deixou a cozinha. Depois que ela se retirou, tio Reuben lanou-me outro olhar irritado e seguiu-a.
Pelo que eu j vira, compreendi que tio Reuben manipulava a famlia naquela casa com um olhar, uma palavra, um gesto. Era como um titeriteiro. Todos saltavam quando 
ele puxava os cordes. Podia sentir que tio Reuben tambm amarrava cordes em meus braos e pernas. Muito em breve me tornaria apenas outro boneco.
Assim que acabei os deveres da escola, arrumei a cama e vesti a nica camisola que possua. Deitada ali, olhando pela janela para as estrelas que cintilavam entre 
as nuvens, pensei que, de alguma forma, me transformara na Cinderela sem o sapato de cristal mgico da fada madrinha. No haveria qualquer magia em minha vida.
Houvera um tempo em que eu sonhava com lugares distantes, belas casas, rapazes bonitos, bailes de gala, boas roupas e jias. Participava do meu filme, projetando 
as cenas na parede da minha imaginao. Tudo para escapar daquele pequeno apartamento.
Tive de rir.
Aqui estava eu, fora do apartamento, com uma famlia, estudando numa nova escola... e com o que sonhava? Em voltar para o meu pequeno apartamento.
Na verdade, passei a gostar da nova escola. Como as turmas eram bem menores, os professores podiam me dedicar mais tempo. Tambm comecei a fazer amizades. Jennifer 
continuava a me evitar tanto quanto possvel, mas eu aceitava isso. Pelo que podia observar de suas amigas, garotas parecidas com ela, egostas, vaidosas, mentirosas, 
achava at melhor assim. Havia muitas outras alunas mais simpticas para conhecer.
Jennifer estava longe de ser a moa virtuosa que fingia ser na presena de tio Reuben. Andava com garotas que fumavam no banheiro. Pelo que me disseram e que eu 
pude ver, ela muitas vezes colava nos deveres e provas. Descobri que os professores tambm no gostavam dela. Terri Johnson me contou que Jennifer e suas amigas 
costumavam fazer pequenos furtos em lojas nos shoppings apenas pela emoo. Ali estava ela, uma moa com pais, uma boa casa e todo o resto, mas no era melhor do 
que vrias outras que eu conhecera, de famlias destrudas e morando em lugares horrveis. Perguntei-me o que tio Reuben faria se descobrisse aquelas coisas sobre 
sua preciosa filha.
Um dia, no refeitrio, Jennifer parou com duas amigas  minha mesa. Interrompi a conversa e fitei-a.
- Est atrasada na lavagem da roupa - disse ela. - Preciso daquela blusa azul e branca amanh. Trate de providenciar.
Fiquei boquiaberta, enquanto desviava os olhos de Jennifer para suas amigas sorridentes.
- Ento por que no a lava voc mesma? - indaguei.
- No  voc quem precisa fazer jus a casa e comida?
- E voc?
- No preciso. Tenho pais - respondeu ela, presunosa. - Faa o que mandei ou contarei a papai.
Depois da ameaa, ela se afastou, rindo. Terri baixou os olhos, embaraada por mim.
- Ela  uma garota mimada.
Eu tinha vontade de dizer muito mais, mas era difcil falar. As palavras ficaram presas na garganta, apertada no esforo de reprimir as lgrimas.
- Prefiro viver com uma cobra do que com sua prima - comentou Terri.
Todas as garotas  mesa riram.
-  o que estou fazendo - murmurei - vivendo com uma cobra.
Quando voltei para casa, naquele dia, encontrei a preciosa blusa azul e branca no cesto de roupa suja. Antes de met-la na mquina de lavar, abri um buraco no ombro 
com a ponta do compasso. Depois do jantar, nas teras-feiras, tia Clara e eu dobrvamos e passvamos as roupas. Ela no notou o buraco na blusa. Levou tudo para 
o quarto de Jennifer. Foi s na manh seguinte, quando eu tinha certeza de que vestiria a blusa para exibi-la na escola, que ouvimos seu grito.
Eu j me levantara e me vestira. Tia Clara estava comigo na cozinha, preparando o caf da manh.
- Mas o que foi isso?
Ela seguiu apressada at a escada. Jennifer estava parada no patamar l em cima, de saia e suti, com a blusa na mo.
- Olhe s para isto, mame! Olhe s!
- O que aconteceu? - perguntou tio Reuben, saindo de seu quarto e abotoando a camisa.
- Tem um buraco na minha blusa predileta e foi ela quem fez! Foi ela, papai!
Jennifer mostrou-lhe a blusa. Ele examinou-a, depois olhou para mim l de cima.
- Voc fez isso? Sacudi a cabea.
- Nem mesmo vi, ou teria avisado a tia Clara.
- Por que Raven faria uma coisa dessas? - perguntou tia Clara.
- Porque  uma invejosa! - gritou Jennifer.
- Nem mesmo gosto dessa blusa - comentei, sarcstica. -  antiquada, o tipo de blusa que uma av poderia usar.
- No , no! Todo mundo est usando blusas assim. Voc no sabe de nada sobre moda.
- Por favor, Jennifer - disse tia Clara -, pare de gritar.
William saiu de seu quarto e olhou ao redor, surpreso. Sorri para ele, que retribuiu.
- Se eu souber que foi voc quem fez o buraco na blusa... - ameaou tio Reuben. Ele tornou a examinar a blusa. - No sei como esse buraco pode ter aparecido a.
- Pode ter sido feito por traas - sugeri. Tio Reuben levantou os olhos abruptamente.
- No temos traas... ou pelo menos no tnhamos at voc vir para c. Clara?
- Comprarei uma blusa nova para ela hoje, Reuben.
-  melhor eu no tornar a ver qualquer outra coisa assim - advertiu ele.
Tio Reuben devolveu a blusa a Jennifer e voltou para seu quarto, a fim de terminar de se vestir. Tia Clara foi para a cozinha. Jennifer e eu nos fitamos.
- Vai se arrepender - declarou ela. - Vou usar ablusa de qualquer maneira e contar a todo mundo o que voc fez.
- Como quiser, Jennifer. S vai bancar a tola mais ainda.
Pisquei para William.
- Do que est rindo? - gritou ela para o irmo, antes de voltar correndo para o quarto.
Pela primeira vez em muito tempo, tive um grande apetite e comi tudo. At mesmo tio Reuben ficou impressionado porque no deixei nenhuma migalha.

Por um triz

Quando embarcamos no nibus escolar, na quintafeira, eu tinha os braos cheios. Jennifer tivera de fazer um projeto de estudos sociais. Optara por um grfico grande. 
Houvera um bom motivo para isso. Uma de suas amigas, Paula Gordon, com muito talento para desenhar, fizera a maior parte do trabalho. Quando Jennifer mostrara a 
tio Reuben, na manh de quinta-feira, ele ficara extasiado, como se fosse a obra de um pintor famoso, como Rembrandt, ou aquele que cortara a orelha para dar  namorada. 
Eu achava que qualquer das casas de passarinhos que William fazia em sua oficina era uma realizao duas vezes melhor, mas nunca ouvira tio Reuben sequer mencion-las, 
muito menos elogi-las.
Como sempre, Jennifer exultou com os elogios jogados pelo pai, como se fosse arroz num casamento. Quando nos aprontvamos para sair de casa, ela se mostrou muito 
preocupada em levar seu precioso projeto para a escola intacto. Surpreendeu-me ao parar na porta e perguntar se eu poderia lhe prestar um favor, com a voz mais doce 
do mundo. Percebi que esperara para fazer isso num momento em que tio Reuben se encontrava prximo.
- Sabe como todo mundo faz a maior baguna no nibus, Raven. Tenho de proteger meu grfico. Pode fazer o favor de carregar meus livros, os cadernos e o saco com 
o lanche? Por favor. Quando voc precisar, tambm lhe farei um favor.
O que mais eu podia fazer seno concordar? Sentime como uma escrava ao andar atrs dela, os braos carregados com as coisas de Jennifer, alm das minhas. Ela desfilou 
pela calada e entrou no nibus segurando o grfico l em cima, para que todos vissem.
- Algum tem que dar o lugar a Raven! - pediu ela. - Ela est carregando minhas coisas!
No havia necessidade. Eu sempre sentava com Clarence Dunsen. Jennifer queria apenas que todos soubessem que podia me obrigar a fazer uma coisa assim.
Quando chegamos na escola, ela me surpreendeu ao pegar apenas os livros e cadernos de que precisava para as aulas da manh.
- Leve o resto para o refeitrio, Raven. Tenho de carregar o grfico at a aula de estudos sociais.
Jennifer falou na presena das amigas, que me fitavam com sorrisos sugestivos e olhos irnicos.
- Por que no deixa agora na sala de estudos sociais? - perguntei.
- E correr o risco de algum sabotar? Nunca! Lembram o que aconteceu com a criao de formigas de Robert Longo na aula de cincias? - Ela correu os olhos por seu 
squito. Todas acenaram com a cabea. - Algum despejou gua e afogou todas as formigas.
- Eu me pergunto quem seria capaz de fazer isso - murmurei, sarcstica.
- Obrigada, Raven.
Jennifer se afastou antes que eu pudesse protestar. Levei suas coisas junto com as minhas para a primeira aula.
- Por que trouxe dois lanches hoje? - perguntou Terri Johnson, na sala de ingls.
Relatei o que acontecera. Terri franziu as sobrancelhas, a pele na testa se contraiu em pequenos sulcos.
- Jennifer est apenas tentando se mostrar - acrescentei.
Mas Terri ainda parecia desconfiada.
- Ela podia pedir a uma de suas escravas para fazer isso. Aquelas garotas ficam na maior alegria quando lhe prestam algum favor. J vi muitas vezes. No sei o que 
ela est tramando, mas minha av sempre diz que uma cobra no pode virar um coelho.
Soltei uma risada. Mais tarde, tambm comecei a estranhar a situao. Pouco antes da aula terminar, olhei para o que eu pensava ser o saco do lanche de Jennifer. 
Descobri que tinha o meu nome. Por que ela faria isso?
Abri o que deveria ser o saco de Jennifer. Em geral levvamos as mesmas coisas. Eu sabia porque ajudava tia Clara a preparar. Mas havia um pequeno pacote extra de 
papel encerado no saco de Jennifer. Levantei os olhos para me certificar de que a sra. Broadhurst no estava olhando, ento abri o pacote.
Um choque frio mas eltrico atingiu meu corao. J vira aquilo antes. Sabia o que era um cigarro de maconha. J vira e cheirara no meu antigo apartamento. Lila 
Thomas tentara um dia me persuadir a fumar.
Olhei para Terri. Ela percebeu no mesmo instante, por minha expresso, que havia algum problema. Baixei a mo para o lado da carteira, olhei para a professora. E 
abri a mo. Quando tornei a olhar para Terri, ela acenava a cabea com satisfao. Cinco minutos antes da aula terminar, o verdadeiro motivo pelo qual Jennifer me 
pedira para carregar seu saco do lanche foi revelado.
- Com licena, sra. Broadhurst - disse da porta a estudante que servia como ajudante voluntria da diretoria. - O sr. Moore quer falar com Raven Flores imediatamente. 
E mandou que ela levasse todas as suas coisas.
- Raven... - murmurou a professora, acenando com a cabea para mim.
Olhei para Terri, que tinha uma expresso preocupada. Sorri e pisquei para tranqiliz-la.
Peguei todas as coisas, olhei mais uma vez para Terri, e segui a estudante. Ao deixar a sala, enfiei o papel encerado com o cigarro de maconha em meu suti. J vira 
muitas garotas fazerem isso em minha antiga escola. Ningum olhava ali. Era uma coisa sria despir uma aluna para revist-la. Os professores tinham pavor de sequer 
fazerem a sugesto. As garotas sabiam disso.
O sr. Moore estava de p atrs da mesa quando entrei na sala. Fitou-me em silncio por um momento, depois balanou a cabea para a ajudante voluntria.
- Pode sair e fechar a porta.
Ela me lanou um olhar curioso antes de obedecer.
- Sente-se - ordenou o diretor, indicando a cadeira. Sentei, mas ele continuou de p.
- Sempre foi minha poltica cuidar dos problemas internamente, se possvel. - Ele me lanou um olhar rpido, para verificar minha reao. - Isso no significa que 
no conto aos pais o que acontece. Tenho a obrigao de contar. Mas o resto do mundo no precisa tomar conhecimento de nossa roupa suja.
- O que quer comigo?
Ele alteou as sobrancelhas, surpreso com a minha coragem.
- Sei que teve uma pssima criao, vivia num lugar horrvel. O que pode explicar seu comportamento. Mas agora chegou a uma idade em que tem de ser responsvel por 
suas aes, mocinha. Deve saber disso.
Virei o rosto. Fiquei olhando para uma placa na parede, esperando que ele continuasse.
- Se h alguma coisa ilegal no saco do seu lanche, quero que tire agora, deixe em cima de minha mesa, e volte para a aula. Mais tarde conversaremos a respeito... 
e pode acreditar que isso  um grande favor que estou lhe prestando.
Meu corao batia forte, mas sorri assim mesmo. Inclinei-me para a frente, abri meu saco, tirei o sanduche e os biscoitos. Virei o saco pelo avesso e pus ao lado 
da comida. Esperei.
- O que tem no outro saco? - perguntou o sr. Moore.
- Aquele  da minha prima, embora tenha o meu nome. Estou fazendo um favor para ela. Seus braos estavam ocupados com os livros e o projeto de estudos sociais.
- Como posso saber que  dela se tem o seu nome?
- No pode, mas trazemos o mesmo lanche. Portanto, no tem importncia.
Tirei o sanduche e os biscoitos. Tambm virei o saco pelo avesso. E esperei. Os olhos do diretor foram do contedo inofensivo dos sacos para os meus livros e depois 
para o meu rosto.
- Posso pelo menos saber o que est procurando? - perguntei.
- No importa. Pode guardar tudo. Foi o que fiz, bem devagar.
- Acho que no  justo que eu tenha sido chamada assim sem qualquer motivo.  embaraoso sair no meio da aula para ir ao gabinete do diretor.
Ele empinou os ombros num movimento brusco, como se eu tivesse acertado com um elstico em seu rosto.
- Tenho uma grande responsabilidade aqui, mocinha. H muitas vidas jovens entregues aos meus cuidados. Alm disso, li sua ficha na escola anterior. - Ele levantou 
uma pasta grossa em cima da mesa. - Para ser franco, eu consideraria lev-la ao Juizado de Menores se fizesse tudo isso aqui. No me surpreende que sua me esteja 
na priso.
- No fiz nada de errado.
- Veremos...
- Quem contou que eu tinha feito?
- Isso no  da sua conta. Muito bem, pode voltar para a sua aula. E lembre-se de uma coisa. - Ele bateu com os dedos na pasta com a minha ficha. - Ficarei de olho 
em voc.
Levantei-me e deixei a sala. Como a campainha j tocara, a secretria teve de me dar um passe de atraso. Quando entrei na sala, Terri levantou os olhos, na maior 
expectativa. Inclinei a cabea e sorri, para indicar que estava tudo bem. Depois da aula, relatei o que fizera e o que acontecera.
- Ela tentou armar para cima de mim... me meter numa encrenca.
- No me surpreende. Jennifer e suas amigas esto sempre armando contra outras pessoas.  melhor voc tomar cuidado.
-  o que farei... mas ela vai descobrir que tambm precisa tomar cuidado.
Na hora do almoo, Jennifer e suas amigas vieram at minha mesa.
- Vou levar meu lanche - disse ela.
- No sei qual dos dois  o seu, Jennifer. Por algum motivo, meu nome est nos dois sacos. Por sorte, trouxemos a mesma coisa.
Estendi o saco. Ela pegou-o, olhou para suas amigas e depois para mim.
- Ouvi dizer que voc foi chamada ao gabinete do diretor. Por que ele queria falar com voc? - Jennifer sorriu para as amigas. - Espero que no tenha embaraado 
meus pais.
- No foi nada importante. - Tomei um gole de leite, sugando pelo canudo. - Ele s queria saber o que tnhamos para o lanche. Comentou que ouvira dizer que trazemos 
os melhores lanches da escola.
Dei uma mordida no sanduche ao terminar de falar. At mesmo as amigas de Jennifer tiveram de rir. Ela ficou furiosa, o rosto to vermelho que at pensei que o sangue 
sairia pelo alto da cabea, como um giser. Virou-se abruptamente e afastou-se. Terri e as outras garotas  minha mesa riram tanto que outros alunos no refeitrio 
pararam de conversar para olhar.
- Acho que h tambm uma pequena serpente em voc - comentou Terri.
- E podia ser diferente? Somos primas, no  mesmo?
O que provocou mais risadas.
Mas eu ainda no acabara.
No sbado, Jennifer saiu com as amigas logo depois do caf da manh, como sempre fazia. Tia Clara tentou persuadi-la a me levar junto, mas ela resistiu e queixou-se:
- Raven no tem as mesmas amigas que eu.
- O que isso significa? - perguntou tio Reuben no mesmo instante, olhando para mim. - Quem so as amigas de Raven?
Jennifer deu de ombros.
- Ela anda com alunas negras. Imagino que  por ser to escura.
- No  por isso - declarei. - Ando com pessoas de cor que por acaso so simpticas, em vez de falsas.
- E com isso est querendo insinuar que minhas amigas so falsas?
Foi a minha vez de dar de ombros.
- Como sou nova na escola, todo mundo me alerta contra elas.
Falei com um tom to despreocupado quanto podia. O rosto de Jennifer dava a impresso de que enfrentava uma parede de fogo. Antes que ela pudesse gaguejar uma resposta, 
tia Clara interveio:
- Vocs duas deveriam se dar bem. So mais ou menos da mesma idade.
- No quero que Jennifer ande com garotas encrenqueiras - resmungou tio Reuben.
- No ando com garotas encrenqueiras - protestei. -  o inverso que acontece.
- Por que ela no pode sair com Jennifer e se divertir com gente jovem? - indagou tia Clara.
- No se preocupe. Sinto-me bem aqui.
No sei por que tia Clara sugeriu que eu sasse tambm. Ela sabia que tio Reuben ficaria em casa e me vigiaria, para ter certeza de que eu cumpriria todas as minhas 
tarefas. Jennifer no levantaria um dedo, e com toda certeza no me esperaria.
Pouco depois da sada de Jennifer, tia Clara e eu iniciamos a faxina semanal da casa. William queria ajudar com o aspirador, mas tio Reuben repreendeu-o.
- Isso  trabalho de mulher. Deixe que elas faam tudo. Por que no sai para jogar beisebol ou futebol americano, em vez de passar o tempo todo em seu quarto?
A pergunta fez com que William fosse se meter em seu quarto ainda mais depressa. Olhei para tia Clara, esperando que defendesse William. Mas ela desviou os olhos 
e continuou a trabalhar. Subimos para a faxina nos quartos. Comecei pela sujeira de Jennifer, como sempre. Estava pior do que nunca, agora que ela sabia que eu tinha 
de limpar. Tia Clara sentiu pena de mim e veio ajudar. Comeou por arrumar a cama. Quando levantou o travesseiro, parou e ficou olhando, aturdida. Continuei a recolher 
as roupas, espalhadas por toda parte, talvez de uma forma deliberada. Uma blusa fora pendurada na beira do espelho de maquilagem.
- O que  isto? - indagou tia Clara.
- Isto o qu?
Virei-me e olhei, enquanto ela largava o travesseiro e pegava o cigarro de maconha. Tia Clara cheirou-o e fitou-me. Aproximei-me e inclinei a cabea para cheirar 
tambm. Balancei a cabea devagar, os olhos arregalados.
- Isto  o que eu penso, Raven?
- Infelizmente, tia Clara, , sim.
- Oh, no, no, no! Tenho de contar a Reuben! Ela saiu apressada do quarto e desceu. Momentos depois, ouvi tio Reuben subir correndo, os passos to pesados que 
toda a casa tremia.
- O que est acontecendo aqui? - gritou ele.
Sa do banheiro, carregando as toalhas midas que levaria para a lavanderia.
- No sei.
- Quem ps isto na cama?
Tia Clara apareceu por trs dele.
- No sei, tio Reuben.
- No foi voc?
- Ela recolhia as roupas sujas quando encontrei, Reuben - interveio tia Clara, comeando a chorar. - No foi ela.
- E suponho que voc no sabe de nada a respeito - insistiu tio Reuben.
Sacudi a cabea. Os olhos de tio Reuben se contraram e alargaram. Ele olhou para tia Clara, depois para mim.
- Cuidaremos disso quando ela voltar para casa. Tio Reuben lanou-me outro olhar furioso e depois deixou o quarto.
- Oh, no, no! - balbuciou tia Clara, saindo tambm.
Larguei as toalhas, olhei para a foto de Jennifer na cmoda. Ela exibia o sorriso mais presunoso do mundo. Sorri para mim mesma.
A reao de Jennifer foi a que eu esperava. Assim que foi confrontada com a prova, desatou a chorar e apontou o dedo indicador direito para mim, como uma pistola.
- Foi ela! Fez isso para me causar problemas! Tio Reuben acenou com a cabea.
- Foi o que eu pensei.
- Como eu poderia fazer isso? - indaguei. - No entrei em seu quarto at subir com tia Clara para limpar a sujeira.
- Deve ter posto l antes.
- Por qu?
- Para me meter numa encrenca.
- Por que eu faria isso? Por que me rebaixaria a pr uma coisa dessas sob seu travesseiro?
Ela me fitava com um dio intenso. Virou-se para tio Reuben e gemeu.
- Papai!
- Jennifer nunca fez isso antes - declarou tio Reuben. - Mas aposto que voc j fez.
- Perderia a aposta - respondi.
- No fiz nada, papai! - gritou Jennifer, batendo com o p.
- Est bem, est bem. Acredito em voc.
Ele pensou por um momento. Percebi que havia uma sombra de dvida em sua mente.
- Vamos deixar como est, por enquanto. Mas ficarei atento a mais problemas, por menores que sejam. E se tornar a encontrar drogas nesta casa, levarei a pessoa  
polcia.  uma promessa.
Tio Reuben dirigiu suas palavras para mim. Jennifer parecia satisfeita. Fitou-me com uma expresso de contentamento.
- Estou cansada - disse ela. - Quero descansar antes de sair para o cinema.
Nada mais se falou sobre o incidente no domingo. Mas quando samos para a escola, no dia seguinte, Jennifer me disse, antes de embarcarmos no nibus:
- Sei que foi voc quem ps a maconha ali.
- O cigarro era seu. Por acaso deixou-o no saco com o seu lanche. Tirei-o a tempo, antes que se metesse numa encrenca. - Fiz uma pausa e acrescentei, fingindo ser 
uma idiota: - Pensei que me agradeceria por escond-lo para voc.
Ela me fitou em silncio por um longo momento, antes que uma compreenso fria aflorasse em seus olhos. Mais tarde, contei a Terri. Ns duas nos divertimos ao contarmos 
a vrias amigas. Jennifer evitou-me durante a maior parte do dia. Foi um dos meus melhores dias na nova escola, mas ainda desejava que tudo aquilo acabasse. J me 
cansara de tio Reuben e de brigar com Jennifer.
Minhas esperanas tiveram uma morte sbita quando chegamos em casa naquela tarde. Jennifer recusou-se a falar comigo no nibus. Andava to devagar que cheguei em 
casa primeiro. Assim que entrei, tia Clara saiu da sala, a mo segurando um leno, cobrindo a boca.
- O que aconteceu? - perguntei. Jennifer entrou atrs de mim.
- Sua me - respondeu tia Clara. - Ela escapou do centro de reabilitao.  uma fugitiva.
- Acho timo - murmurou Jennifer. - Talvez ela venha buscar voc e as duas fujam juntas.
- Pare com isso! - gritou tia Clara, numa voz to alta e estridente que surpreendeu at a mim. - No vou admitir!
Os olhos de Jennifer encheram-se de lgrimas.
- Voc se importa mais com ela do que comigo, mame!
Tia Clara comeou a sacudir a cabea, mas ela insistiu:
-  verdade! Mas isso no me surpreende! Jennifer subiu correndo a escada.
-  melhor eu ir embora - murmurei, olhando para ela.
- E para onde iria? Tem de ficar com a sua famlia. Famlia, pensei. Eis uma palavra que jamais poderei compreender.

Por trs de portas fechadas

- D para acreditar? - gritou tio Reuben, ao entrar em casa. - A polcia foi ao meu escritrio! Foi me procurar no trabalho! A polcia! Todos viram e queriam saber 
o que tinha acontecido. Minha irm, tive de explicar, fugiu de um centro de reabilitao de drogados, violou ordens judiciais.  uma espcie de fugitiva. A polcia 
veio perguntar se ela havia me procurado. Uma coisa posso garantir. Se ela tiver a ousadia de me procurar, vou entreg-la  polcia. Ela est nos arrastando para 
a lama!
Eu estava em meu quarto, tremendo. Podia ouvi-lo batendo as coisas na cozinha.
- Por favor, Reuben, no fique to transtornado - suplicou tia Clara.
- No ficar transtornado? - Ele soltou uma risada furiosa. - Minha irm est cada vez pior, Clara.  como uma espcie de fruta escura e podre, deixando tudo fedorento. 
E agora tenho de criar sua delinqente juvenil. Por que ela no pensou antes de engravidar daquele vagabundo? O Estado ter de nos pagar por isso. Darei um jeito. 
Vejo esse tipo de coisa durante todo o tempo... mulheres que no tm condies de ter filhos, que nunca deveriam ter filhos, parindo e jogando a responsabilidade 
para cima de ns.  por isso que os impostos so to altos, por causa de pessoas como minha irm e do que elas geram.
- Tem de parar com isso, Reuben. Vai acabar doente.
- Doente? J estou doente. No agento mais isso. - Ele soltou um grunhido to alto que pensei que ia atravessar a parede. - E ningum diga que no tentei ajudar 
minha irm. Disse a ela como um homem de verdade age... mostrei a ela. E mostrei direitinho!
- Reuben... acho que voc no deve ficar to nervoso.
Pelo tom de voz, dava para perceber que tia Clara tambm se sentia nervosa e queria mudar de assunto.
O que tio Reuben estava dizendo sobre minha me? O que ele mostrara a mame?
Ouvi-o se levantar e seguir para a escada, parando na minha porta. Meu corao disparou. Pensei que ele abriria a porta, furioso, gritaria coisas sobre minha me, 
como eu era um nus para a sociedade. Mantive os olhos no cho e esperei, prendendo a respirao. Um momento depois, ouvi-o subir a escada.
Meus olhos ardiam com lgrimas quentes. Olhei pela janela.
Mame, como pde fazer isso comigo? Por que fugiu? Por um momento, especulei se ela viria me buscar, me levar para longe de tudo aquilo. At me esconderia com ela. 
Mas logo pensei: Quem eu queria enganar? Provavelmente eu fora a ltima coisa em que ela pensara ao fugir. A esta altura, mame deveria estar com um dos seus namorados 
degenerados, ou escondida ou fugindo para viver em algum buraco.
Minha me parecia-me agora ser duas pessoas diferentes. Quando eu era menor, pensava nela como algum para amar e algum que me amava. Mas de alguma forma, em algum 
lugar, tudo isso desaparecera. Passramos a viver como duas estranhas. Talvez tio Reuben tivesse razo. Talvez minha me no prestasse. Alguma coisa sara errada 
dentro dela, nunca mais poderia ser recuperada. Nunca mudaria.
O mesmo germe ruim existia dentro de mim? Haveria de me tornar igual a ela algum dia, apesar de todo o meu esforo em contrrio? Tio Reuben teria razo tambm nesse 
ponto? Era a filha de minha me. Herdara alguma coisa dela... e talvez fosse o que tinha de ruim. No era uma boa aluna. No tinha amigas de verdade. Sentia medo 
de ter ambies. Por isso, quando tentava me imaginar dez anos depois, s podia ver a mesma pessoa solitria e perdida.
Tio Reuben no estava enganado. Eu seria igual  minha me.
Soltei um suspiro to fundo que meu peito doeu. Depois levantei-me, enxuguei os olhos e fui ajudar tia Clara a preparar o jantar. Ela parecia muito cansada e triste. 
A maneira como deixava os ombros cados, mantinha os olhos abaixados e andava em passos pequenos e indecisos fazia-a parecer ainda menor do que era. Dava a impresso 
de que encolhera vrios centmetros desde que tio Reuben voltara do trabalho. Era ela quem parecia digna de pena, mas virou-se para mim com uma profunda compaixo 
nos olhos e balanou a cabea.
- Sei como deve estar se sentindo, minha pobre criana. Lamento que sua me tenha feito aquelas coisas. Ela devia ter pensado no que significava para voc.
No respondi. Pus a mesa, circulando pela cozinha em movimentos mecnicos. Temia sentar  mesa para jantar com tio Reuben naquela noite. Minha garganta se fechava 
s de pensar. Assim que ele iniciasse seu discurso sobre minha me e se queixasse de mim, euengasgaria e sufocaria com qualquer coisa que tivesse na boca... e tio 
Reuben reclamaria do desperdcio da comida que trabalhara tanto para comprar.
Senti-me tonta de repente e precisei me apoiar no encosto de uma cadeira para no cair. Tia Clara veio correndo para mim.
- O que houve, Raven?
- No sei. Minha cabea comeou a girar.
- Est branca como uma vela. Vamos, sente. Beba um pouco de gua.
Sentei. Tinha o estmago embrulhado. Quando ela trouxe a gua, tive de segurar o copo com as duas mos para beber. Senti-me um pouco melhor.
- Quero que voc se deite, meu bem - insistiu tia Clara. - No preciso que faa mais nada. Pode ir descansar. Sofreu um grande choque.
Ela me ajudou a levantar e ir para a sala de costura. Eu ainda no abrira o sof-cama. Tia Clara fez isso por mim. Deitei e murmurei:
- Ainda me sinto um pouco tonta.
- Se no estiver melhor daqui a pouco, vou lev-la ao pronto-socorro.
- No estou to doente assim, tia Clara. Ficarei boa num instante.
Ela afagou meus cabelos, sentiu minha testa.
- No tem febre, mas est suando muito.  tudo emocional, tenho certeza. S precisa descansar.
Tia Clara trouxe um novo copo com gua e ps ao meu lado. Acomodei-me sob as cobertas. Logo me senti um pouco melhor, mas continuava com o estmago embrulhado. Fechei 
os olhos de novo. Antes de perceber, mergulhei no sono, apenas para ser acordada pela voz alta de tio Reuben, ressoando pela casa como uma trovoada, querendo saber 
onde eu me metera, por que no ajudava a servir o jantar. Fiz meno de me levantar, mas o quarto girou tanto ao meu redor que fui obrigada a deitar de novo.
As vozes tornaram-se murmrios indistintos. Devo ter adormecido de novo. Quando abri os olhos, deparei com tia Clara parada na porta, com uma bandeja nas mos.
- Como se sente agora, querida? - perguntou ela. Pisquei vrias vezes, esfreguei o rosto, sentei devagar. Felizmente, o quarto no girou.
- Melhor.
- Isso  timo. Trouxe seu jantar. Tem de pr algum alimento quente no estmago.
- No tenho fome.
- Sei que no tem, mas  melhor comer quando sente toda essa tenso. - Ela ajeitou a bandeja em meu colo. - Coma o que puder.
- No d para aceitar, servir a garota desse jeito, como se fosse uma hspede especial - resmungou tio Reuben da porta.
- Eu disse que ela no se sentia bem, Reuben. Precisa comer alguma coisa.
- Claro que ela no se sente bem. Quem poderia sentir se fosse criada do jeito como ela foi?  de admirar que no esteja muito doente, com alguma coisa grave. Poderamos 
todos pegar a doena... e voc ainda pediu que Jennifer partilhasse roupas com ela.
- Sou to saudvel quanto Jennifer. Ele sorriu.
- Posso imaginar como esto seus dentes. Quando foi ao dentista pela ltima vez?
J tinha passado quase um ano. Por isso, no respondi.
- Entende agora o que eu quis dizer? - insistiu ele, olhando para tia Clara. - Ou damos um jeito para que o Estado nos ajude, ou...
- Ou o qu? - perguntei.
- No banque a espertinha para cima de mim - resmungou ele, sacudindo um dedo para mim.
- Deixe-a comer, Reuben. H tempo para conversar sobre tudo isso mais tarde.
Ele lanou um olhar furioso para tia Clara, que se apressou em baixar o rosto.
- Tempo? Isso mesmo, temos tempo. - A voz era sarcstica. - Muito tempo. Minha irm no voltar para busc-la. Com toda a certeza.
Tio Reuben se afastou. Comecei a chorar. Os ombros tremiam tanto que pensei que o corao se partiria ao meio. Tia Clara ps a bandeja no cho. Sentou ao meu lado 
e me abraou.
- No chore, querida. Ele no falou srio. Est transtornado por causa do constrangimento que sofreu no trabalho. Se continuar assim, s vai ficar ainda mais doente... 
e depois?
Respirei fundo, fiz um esforo para reprimir as lgrimas.
- Por favor, Raven, coma alguma coisa - suplicou tia Clara.
- Est bem. Obrigada, tia Clara.
Comecei a comer. Ela se retirou. Mais tarde, William apareceu na porta.
- Vou levar sua bandeja para a cozinha - ofereceu ele.
- Obrigada - murmurei, sorrindo. - Posso fazer isso, William. Mas foi muito gentil de sua parte se oferecer.
Ele continuou a me fitar.
- Algum problema, William? - perguntei a ele.
- Sente-se melhor agora?
- Bem melhor. Sua me tinha razo. A comida quente ajudou.
William sorriu.
- Ainda bem, porque quero lhe mostrar minha casa de passarinhos de dois andares. J acabei.
-  mesmo? Pois quero ver.
Levei a bandeja para a cozinha. Tia Clara, que assistia  televiso, veio correndo.
- Pode deixar que eu fao isso, Raven.
- Estou bem agora - murmurei, sorrindo.
- E comeu tambm. timo. - Ela ps a loua na mquina. - Pode ir fazer os deveres da escola. Se preferir, Raven, venha assistir  televiso comigo.
- Vou subir para ver a nova casa de passarinhos de William. Farei os deveres depois.
- Est bem.
William tinha uma expresso de orgulho.
- Vamos subir.
Fomos para o seu quarto. Enquanto sentava e o ouvia explicar que tipo de passarinho se alimentaria em sua casa, senti pena dele, porque seu pai no demonstrava o 
menor interesse pelas coisas que fazia. William era como uma flor, atrofiada e plida porque recebia pouco sol. Falava quase tanto tempo sobre o pai escarnecendo 
de seu hobby quanto sobre o motivo pelo qual adorava fazer aquelas casas. Quando demonstrei um interesse sincero pelo que fazia, William no se mostrara mais tmido 
ou triste. Tornara-se radiante de orgulho.
- Obrigada por me mostrar seu trabalho, William. Aposto que poderia vender essas casas de passarinhos. So perfeitas.
Corri os olhos por sua coleo. Era sem dvida impressionante, ainda mais quando se sabia que ele fizera tudo aquilo sozinho.
Mais radiante ainda, ele circulou pelo quarto, mostrando seus livros sobre aves, ferramentas e tintas, algumas outras criaes.
- Tem algum passarinho predileto, Raven? Porque se tiver, farei uma casa especial para voc.
- No, no tenho. E no sei muita coisa sobre passarinhos. No havia muitas rvores em torno do prdio.
- Tem razo. Sabe, Raven, eu gostaria de construir uma casa para cada tipo de passarinho que temos por aqui. Mas  preciso dinheiro para comprar a madeira e o resto 
do material. E cada vez que falo com papai sobre meus projetos, ele ri de mim.
William baixou a cabea, desolado.
- Eu gostaria de ter algum dinheiro para ajud-lo a comprar o material.
- No se preocupe. Arrumarei o dinheiro. - Ele pensou um instante, e depois decidiu me contar como. - Papai deixa cair uma poro de moedas por trs das almofadas 
do sof l embaixo ao se esparramar para assistir  televiso. Quando no h ningum por perto, levanto as almofadas e pego as moedas. Uma vez encontrei quase dois 
dlares em moedas de vinte e cinco e dez centavos.
Soltei uma risada.
- Seu segredo est seguro comigo, William. Inclinei-me e beijei-o na testa. Por um momento, ele parecia to chocado que pensei que ia chorar ou gritar. Quando me 
virei, descobri a causa de seu alarme. Tio Reuben estava parado na porta.
- O que vocs dois esto fazendo aqui? - O rosto de tio Reuben se tornara vermelho de raiva. - Raven, fique longe do meu filho. Eu sabia que era uma encrenqueira 
que no prestava, como sua me. E agora voc se exibe e tenta meu filho, da mesma forma como ela me tentou. Mas no vou admitir nada parecido! Saia deste quarto 
agora, antes que eu a arraste pelos cabelos!
Por um segundo, fiquei apavorada demais para fazer qualquer movimento. Depois, tio Reuben comeou a puxar William, e compreendi que tinha de escapar dali.
Mas vi a expresso horrorizada de William ao me levantar. Sabia que devia defend-lo.
- No fizemos nada de errado, tio Reuben. William estava apenas me mostrando suas casas de passarinhos.
Provavelmente deixei-o ainda mais zangado com essas palavras. No tinha a menor idia do motivo para sua fria. E me sentia envergonhada por deixar William enfrentar 
o pai sozinho.
Sem olhar para trs, desci correndo, entrei em meu quarto e fechei a porta. Sabia que tio Reuben a arrombaria com a maior facilidade se quisesse, mas houve um sbito 
silncio na casa. Rezei, pensando que talvez estivesse segura. Pelo menos por enquanto.
Tentei comear os deveres de matemtica, mas no havia a menor possibilidade de me concentrar, com o corao ainda disparado. E se tio Reuben estivesse dando uma 
surra em William? E o que ele pensara que ns estvamos fazendo?
William vivia num medo constante de ser escarnecido e menosprezado pelo pai. Agora, parecia que tio Reuben tinha mais uma coisa para acrescentar  sua munio... 
contra ns dois.
Era bvio, at para mim, que o motivo do retraimento de William era o medo. Isso mesmo, ele tinha medo que o pai gritasse, zombasse, at fizesse algo pior. Sabia 
que tia Clara preocupava-se com William; ela at falara em lev-lo a um mdico. Por que no podia perceber que a causa da timidez de William era o medo?
O que aconteceria se eu continuasse naquela casa, onde tambm era menosprezada e ridicularizada... por meu nascimento, por minha me, por coisas que nem sequer fizera? 
Acabaria me tornando como William? Tambm desapareceria dentro de mim?
No momento em que peguei o livro de matemtica, tia Clara abriu a porta e esticou a cabea para dentro do quarto.
- Voc est bem, Raven?
Ela tinha os olhos vermelhos e inchados, de quem chorara muito.
- Estou, sim, tia Clara. E como est William? Tio Reuben no bateu nele, no ? E no fizemos nada de errado, tia Clara. Eu apenas agradecia a William por me mostrar 
suas casas de passarinhos. Ns... ns...
Falar a respeito me deixava transtornada de novo. Comecei a chorar to forte que no podia emitir mais nenhuma palavra.
- Calma, calma... Eu sei, querida, eu sei. Tudo vai acabar bem.
- Mas... mas William... o que tio Reuben fez com ele?
Por que tia Clara no respondia s minhas perguntas?
- Ele est bem, querida. Mas, por favor, prometa que no vai falar sobre isso de novo. Reuben ficaria transtornado outra vez. Prometa que nunca mais vai falar sobre 
isso!
- Prometo, tia Clara.
Ela ficou imvel por um instante, depois me disse para no ficar acordada at tarde estudando, e saiu. Continuei sentada, com o livro de matemtica no colo, olhando 
para o teto escuro. Ouvi os passos pesados de tio Reuben, uma porta sendo fechada, gua correndo, um telefone tocando. Pobre William, pensei. Eu percebera em seu 
rosto. Ele ficara apavorado. E tia Clara? Ela construra um muro de abnegao ao seu redor, excluindo todos os segredos sinistros. Como um fio enroscado ligado a 
uma bomba-relgio, mais cedo ou mais tarde todo o horror que existia naquela casa haveria de explodir.
Eu no queria vir para c. Tambm no queria estar aqui agora, mas que opo havia? No tinha um pai. No tinha outros parentes. Sentia-me acuada, dominada por acontecimentos 
alm do meu controle. Aumentava ainda mais o pnico que vibrava to alto em meu corao. Pensei que soava com certeza como um tambor na selva, batendo os ritmos 
do alarme.
Pelo que eu deveria orar? Pelo aparecimento milagroso de minha me? Pelo sbito interesse de um pai misterioso por uma filha que ele jamais conhecera? Quem podia 
estar mais perdida do que eu, algum que nem sequer tinha um sobrenome, obrigada a viver com pessoas que no me queriam?
Uma tremenda trovoada sacudiu a janela, acompanhada logo em seguida por um aguaceiro. Gotas enormes batiam contra o vidro, enquanto o vento soprava mais forte, arremessando 
lenis de gua contra as paredes da casa. Ouvi tia Clara correndo pelo primeiro andar, fechando as janelas. Depois, ouvi tio Reuben gritar do alto da escada. Momentos 
depois houve silncio, exceto pelo som montono da chuva. Pude sentir as trevas se aprofundando ao meu redor, envolvendo a casa.
Sentia o rosto frio. Todas as lgrimas haviam se transformado em gelo por trs dos meus olhos. Virei-me e comprimi o rosto contra o travesseiro, enquanto me contraa 
na posio fetal e tentava reprimir o medo e a solido.
O sol incidiu em meu rosto e me acordou, pouco antes de tio Reuben descer. Pulei da cama e corri para o banheiro. Antes mesmo de lavar o rosto, ele j comeara a 
berrar por eu no estar na cozinha, ajudando tia Clara a preparar o caf da manh para todos. Parecia que as coisas haviam voltado ao normal.
- Por que no se levantou antes para ajudar? - perguntou-me tio Reuben quando entrei na cozinha.
William desceu e foi ocupar seu lugar  mesa. Seus olhos se encontraram com os meus por um momento, antes que ele os baixasse para o prato de cereal e o copo com 
suco de laranja. Tio Reuben olhou de William para mim e bateu com o punho na mesa.
- Nunca mais quero encontr-la no quarto de William. Entendido?
- Entendido - murmurei, torcendo para que fosse a ltima coisa a ser dita sobre a noite passada.
- E hoje, mais uma vez, tenho de encontrar algum tempo em minha agenda lotada para cuidar dos seus problemas. Aposto que sua me nunca perdeu um minuto sequer com 
voc. Alguma vez ela foi  escola para saber do seu desempenho?
Sentei e comecei a tomar meu suco de laranja.
- Quando falo com voc, quero que olhe para mim e responda, Raven.
- No, ela nunca foi  escola.
- Foi o que pensei.
Satisfeito com a minha resposta, ele olhou para tia Clara, que continuava ocupada na pia.
- Jennifer deve descer logo, Reuben. Ou vai se atrasar para o nibus.
- Ela nunca se atrasa - declarou tio Reuben.
- Sabe que ela j se atrasou algumas vezes, e voc teve de lev-la  escola.
- O nibus passou cedo demais nesses dias - insistiu ele.
Quando Jennifer desceu, William e eu j acabramos de comer. Comecei a tirar a mesa.
- Deixe isso - ordenou Jennifer, quando peguei o aucareiro. - Ainda no comi meu cereal.
- Deveria se levantar mais cedo, Jennifer - disse tia Clara. - No tem muito tempo agora.
- Eu desceria antes se conseguisse encontrar as roupas que quero - queixou-se Jennifer. - Algum ps minhas blusas no lugar errado, e minha saia predileta estava 
to no fundo do armrio que quase no pude encontr-la.
Ela me lanou um olhar furioso.
- Voc mesma poderia guardar suas roupas - comentei. - Assim saberia onde encontrar cada coisa.
- Voc sente inveja porque tenho mais roupas do que voc. Se tivesse tantas quanto eu, teria dificuldade para lembrar onde as guardou. Alm do mais,  bem provvel 
que tenha escondido a saia para poder us-la um dia.
- No quero usar suas coisas. Tenho minhas prprias roupas e...
- Parem com essa briga  mesa! - berrou tio Reuben.
Ele se levantou de um pulo, o rosto vermelho e furioso. Jennifer sentou-se. Tia Clara apressou-se em despejar caf numa xcara para ela.
- Nunca brigamos  mesa antes - acrescentou tio Reuben, olhando para mim - -, mas aposto que era uma coisa que sempre acontecia na sua casa.
- No era.
Tia Clara me fitou, assustada, e sacudiu de leve a cabea. Queria que eu fizesse como ela, enterrasse a cabea na areia, absorvesse os comentrios horrveis de tio 
Reuben, e orasse para tudo acabar depressa.
- Se eu tiver de fazer alguma coisa valiosa por voc, ser lhe ensinar a se comportar direito - continuou ele. - Sei que h anos de vida degenerada para corrigir, 
mas juro por Deus que voc vai superar tudo se continuar a morar conosco.
Tio Reuben sacudiu seu punho monstruoso para mim e arrematou:
- Por que no observa Jennifer? Aprenda com ela. Alteei as sobrancelhas e quase ri. Jennifer assumiu uma expresso presunosa, mastigando um pouco de cereal, tomando 
um pouco de caf, antes de se levantar de um pulo.
- Temos de ir agora, papai - declarou ela. - Pode ensinar a ela a se comportar mais tarde.
Ele soltou um grunhido. William me ofereceu um olhar compadecido, mas no disse nada. Fui pegar meus livros e sa de casa poucos segundos depois de Jennifer. Ela 
j se afastara pela calada, ao encontro das amigas, no ponto do nibus. O grande assunto de todas as conversas era o iminente baile da escola. As garotas falavam 
sem parar sobre os rapazes que esperavam que as convidassem. A lista de desejos de Jennifer era a mais longa.
- Ela no est aqui h muito tempo - ouvi Paula Gordon sussurrar, acenando com a cabea em minha direo. - Acha que algum vai convid-la?
- Quem poderia convid-la? - indagou Jennifer, rindo bastante alto para que eu ouvisse. - Oh, no, espere um instante. Talvez Clarence Dunsen a convide.
- Isso mesmo - concordou Paula. - Ele vai dizer "Raven... vo-voc... go-gostaria... de-de... ir-ir..."
Todas caram na gargalhada. Afastaram-se em seguida. Suas vozes se tornaram mais baixas, mais furtivas. Fiquei aliviada quando o nibus parou. Entrei logo. Todas 
tornaram a rir quando passaram por mim, sentada ao lado de Clarence.
Era engraado, pensei, como garotas como Jennifer sempre atraam outras garotas iguais a ela. Todas ficam juntas, to  vontade quanto porcos na lama, pensei. O 
que me fez rir. Clarence olhou para mim, com uma curiosidade inquisitiva. Por um momento, desejei que ele me convidasse para ir ao baile. Daramos uma lio em todas 
aquelas garotas. Mas isso no passava de uma fantasia... e na minha vida as fantasias estavam escritas em nuvens que passavam flutuando pelo cu, impossveis de 
agarrar, tangidas por um vento forte, desaparecendo to depressa quanto haviam aparecido.

Ele gosta de mim!

Eu me apaixonara por um garoto quando estava na sexta srie. Seu nome era Ronnie Clark. Tinha olhos azuis que brilhavam com tanto entusiasmo quando ele sorria, que 
fazia uma pessoa se sentir bem, mesmo quando estava perturbada. Apesar disso, aqueles olhos podiam se tornar sombrios com mistrio e intensidade, quando ele fitava 
algum fixamente ou se concentrava em pensamento profundo. Surpreendera-o olhando-me assim algumas vezes. Meu corao disparara e pequenos choques eltricos subiram 
e desceram por minha espinha. Subitamente, comeara a pensar em meus cabelos, minhas roupas, uma espinha aparecendo no queixo.
O mundo ao redor muda quando se percebe que algum to bonito quanto Ronnie Clark est olhando para voc com interesse. Cada vez que eu me movimentava e me virava, 
quando me levantava para sair da sala, at mesmo quando pegava a caneta para escrever no caderno, tinha plena conscincia de que era assim. Mal podia esperar para 
alcanar um espelho, verificar meu rosto e cabelos. Detestava as minhas roupas e me arrependia de no observar minha me se maquilar, o que ela fazia muito bem.
Eu tentava no ser bvia quando olhava para Ronnie; e se Ronnie me surpreendia a contempl-lo, desviava os olhos depressa e fingia que no tinha o menor interesse 
por ele. s vezes ele sorria, s vezes parecia desapontado. Era to tmido quanto eu. Sempre pensava que seria preciso um trator para nos arrastar de uma maneira 
dramtica para o caminho um do outro. Ronnie parecia no ter coragem para sentar ao meu lado no refeitrio, nem me abordar no corredor. Depois de algum tempo, tivera 
medo de estar dando mais importncia do que devia aos seus olhares. Nada podia ser mais embaraoso do que pensar que um garoto gostava de voc quando no era o caso.
Uma tarde, quando eu estava na aula de educao fsica, olhara pela porta do ginsio. Avistei-o parado ali, olhando para mim. Jogvamos vlei e todas tinham o uniforme 
de ginstica. A bola fora cair perto da porta. Corri para peg-la, olhando para Ronnie ao mesmo tempo.
- Gostei - murmurara ele.
Um sentimento de pnico me dominara, mas ofereci o melhor sorriso de que era capaz. A sra. Wilson apitara e gritara para que eu voltasse ao jogo. Ronnie afastara-se 
apressado, antes que ela o repreendesse por estar ali. Mas na hora do almoo ele me abordou na fila, comentando que eu jogava vlei muito bem.
- Poderia at entrar no time feminino agora, em vez de esperar mais um ano - acrescentara ele.
- Conte-me como  participar de um time da escola - pedira.
Ronnie ento veio se sentar  mesma mesa. Comeamos a namorar. Mas nunca fizemos mais do que ficar de mos dadas e trocar alguns beijos depois das aulas. Fomos juntos 
ao cinema uma noite, mas ele tivera que voltar para casa assim que terminou a sesso. E de repente, da mesma maneira repentina como comeara, tudo acabou. Ronnie 
afastara-se de mim, como se eu no passasse de mais um quadro interessante num museu. E passara a olhar para outras garotas como antes olhava para mim. Senti que 
seria uma idiota se o assediasse. Parei de olhar para ele; e foi mais ou menos nessa ocasio que minha freqncia comeou a cair.
Havia menos alunos na escola em que eu estudava agora e apenas cerca de uma dzia de garotos podiam ser considerados to bonitos quanto Ronnie Clark. Concordava 
com Jennifer que no podia ter a esperana de que qualquer deles sentisse algum interesse por mim. Para minha surpresa, no entanto, naquela mesma tarde, depois que 
Jennifer e suas amigas zombaram de mim por causa de Clarence Dunsen, um garoto gorducho chamado Gary Carson esbarrou em mim de propsito, no intervalo entre as aulas, 
sorriu e disse:
- Jimmy Freer gosta de voc.
Ele se afastou apressado, deixando-me confusa. Sabia quem era Jimmy Freer, o capito do time de basquete, alto para sua idade... e muito bonito. Ele figurava no 
alto da lista de desejos de Jennifer. Nunca sequer sonhei que ele poderia olhar para mim. Na hora do almoo, no entanto, quando fui comprar leite, descobri-o atrs 
de mim.
- Essa  a opo saudvel - gracejou ele. Virei-me e, por um momento, fiquei surpresa demais para falar. Jimmy acrescentou: - A maioria compra um refrigerante.
- No gosto muito de refrigerante. Prefiro leite. Paguei o leite e me encaminhei para a mesa em que se sentavam Terri e algumas de minhas amigas. Mas ele me alcanou 
no meio do caminho.
- No quer sentar comigo? - indagou Jimmy, acenando com a cabea para uma mesa  nossa direita.
Olhei para as garotas, todas observando com interesse. No outro lado do refeitrio, Jennifer e suas amigas tambm olhavam para ns. Aqueceu meu corao perceber 
a inveja em seus rostos. Fez-me sorrir.
-OK.
Jimmy seguiu na frente e ps sua bandeja na mesa.
- Gosta da nossa escola? - perguntou ele, enfiando a colher na tigela de sopa.
-  Ok.
-  essa a sua expresso predileta?
- No. s vezes tambm digo que no  OK.
Ele riu. Notei que tinha um sorriso lindo, um nariz perfeito. Gostei da maneira como uma covinha aparecia na face direita quando ele falava. Os cabelos castanhoescuros 
eram bem cortados nos lados, mas ondulavam na frente. Os olhos bonitos eram castanho-claros, com insinuaes de azul, verde e dourado. No era de admirar que Jimmy 
despertasse a paixo de todas as garotas, pensei. Tentei parecer calma e sofisticada sob seu olhar. Podia sentir que todos no refeitrio nos observavam. O que me 
levou a pensar que me encontrava numa enorme tela de televiso, cada movimento ampliado. Limpei os lbios com um guardanapo, com medo de que pudesse haver uma migalha 
na boca ou no queixo.
- Quer dizer que est vivendo com Jennifer, hem?
- Mais ou menos.
- Mais ou menos?
- No chamo aquilo de viver.
Jimmy riu de novo. Sorriu em seguida, os olhos me absorvendo com tanta intensidade que experimentei a sensao de estar nua ali.
- Tive a impresso de que voc era mais inteligente do que a maioria das garotas da escola.
- No sou mais inteligente do que ningum.
- Sabe o que estou querendo dizer - insistiu ele, com um brilho malicioso nos olhos.
- No, no sei.
Ele riu, mas depois voltou a ficar srio.
- J foi a algum jogo de basquete da escola?
- No.
- H um jogo importante na noite de amanh, com o Roscoe. J os vencemos antes, mas eles ganharam o primeiro jogo que tivemos este ano. Por que no vem assistir?
- No sei se posso.
- Por que no pode? No acredita em ter o esprito da escola?
O sorriso provocante ressurgira.
- O problema no  esse. No sei se meu tio me deixar sair.
Jimmy continuou a comer, enquanto pensava.
- Por qu? - Ele inclinou-se para a frente e sussurrou: - Tinha uma ficha suja na ltima escola em que estudou ou algo parecido?
- Claro. Meu retrato aparece nas paredes de todas as delegacias do pas.
Ele me fitou aturdido por um momento, depois caiu na gargalhada, to alto que os alunos ao redor pararam de conversar para olhar.
- Voc  mesmo demais. Aparea no jogo. Depois, Missy Taylor vai dar uma pequena festa na casa dela. Podemos nos divertir, ainda mais se vencermos o Roscoe. Posso 
ouvi-la dizer OK de novo?
- No posso fazer promessas. Minha vontade era ir, a qualquer custo.
- Voc j tem idade suficiente para sair se quiser. No devem mant-la trancada. Jennifer no fica trancada. E aposto que ela vai ao jogo. Pode ir com ela, no ?
- Tentarei. Mas Jennifer no gosta de ir comigo a nenhum lugar.
- Darei um jeito para que ela passe a gostar - murmurou Jimmy, piscando um olho.
Conversamos mais um pouco. Ele fez perguntas sobre minha vida antes de ir morar com tio Reuben. Eu no queria lhe contar muita coisa. Jennifer espalhara a notcia 
de que minha me morrera. Agora, eu tinha medo de contradiz-la e criar um escndalo. Poderia afugentar Jimmy, pensei; e, de qualquer maneira, que diferena fazia 
o que os alunos daquela escola sabiam ou no a meu respeito?
Jennifer abordou-me no corredor na primeira oportunidade que teve, depois da hora do almoo. Em circunstncias normais, ela nem olharia para mim, mas as amigas zumbiam 
ao seu redor, cheias de curiosidade, em vez de plen.
- O que h entre voc e Jimmy? - perguntou ela, como se fosse uma interrogadora da polcia, parada na minha frente, com as mos nos quadris.
- Com licena, Jennifer. No quero me atrasar para a prxima aula.
- No se afaste de mim, Raven! - exclamou ela. Suas narinas tremiam. Naquele instante, ela parecia exatamente com tio Reuben.
- No estou me afastando. Quer que eu me atrase para a aula e tenha um problema? Tio Reuben no gostaria, no ?
- Voc tem tempo. Responda.
- Que Jimmy? - indaguei, com uma expresso inocente.
- Que Jimmy? Jimmy Freer,  claro. Conversou com ele no refeitrio.
Ela se mostrava espantada com a minha pergunta. Olhou para as amigas, tambm surpresas.
- Ahn...  assim que ele se chama? Nunca me disse. Ahn... No h nada entre ns. Mas quando houver alguma coisa, voc ser a primeira a saber.
E sa andando. Quase que pude ouvir a exploso de raiva em sua cabea. No imaginava que Jennifer passaria a me dispensar mais ateno s porque eu fora vista com 
Jimmy Freer. Ela at esperava por mim no nibus ao final do dia.
- Quer ir ao jogo de basquete amanh de noite? - perguntou ela, numa voz to prxima de cordial quanto era capaz.
- Como?
- Est surda? Perguntei se queria ir ao jogo comigo.
- Claro que quero.
Agora era eu que estava espantada.
- Pois ento no deixe meu pai furioso por alguma coisa seno vai estragar tudo.
Ela entrou no nibus antes que eu pudesse perguntar por que de repente no se importava mais de ser vista em minha companhia. S descobri mais tarde. Um amigo de 
Jimmy, Brad Dillon, convidara Jennifer para ir ao jogo e  festa. O plano era um encontro duplo, junto com Jimmy e comigo; e como Brad figurava tambm em sua lista 
de desejos, Jennifer estava ansiosa em me possibilitar o programa, para que tambm pudesse ir. Fiquei ainda mais surpresa por Brad querer sair com ela. Afinal, em 
minha opinio Brad era mais bonito do que Jimmy. Mas como em breve descobriramos, os rapazes tinham planos especiais.
Jennifer queria mesmo fazer o programa. Durante toda aquela noite e no dia seguinte, ela fez tudo o que podia para ter certeza de que tio Reuben no nos impediria 
de ir ao jogo. Tornei-me subitamente muito importante para ela. Jennifer at se ofereceu para ajudar em algumas tarefas em casa. Encenou uma reconciliao, fingindo 
me ajudar a fazer novas amizades.
Tio Reuben marcara uma reunio na agncia de servio social e anunciou durante o jantar que estava tomando as providncias legais para se tornar meu tutor formal. 
Enquanto isso, o pessoal do servio social prometera que cobriria minhas necessidades bsicas e despesas com sade.
- Ainda me irrita que a sociedade tenha de pagar pelos erros da minha irm - declarou ele, enquanto mastigava um pedao da costeleta de cordeiro.
Pensei que ele seria capaz de devorar tudo, at o osso, triturando-o como se fosse um buldogue. Ao ouvir seu comentrio, levantei os olhos abruptamente. Era como 
se tio Reuben tivesse se inclinado por cima da mesa e me espetado com o garfo.
- No sou um erro - declarei, com todo o orgulho de que era capaz.
Havia um fio esticado dentro de mim, uma tenso to grande que pensei que podia perder o controle e desatar a chorar a qualquer momento. Mas prendi a respirao 
e contive as lgrimas.
Tio Reuben ficou imvel por um instante, fitando-me com expresso furiosa, a carne suspensa entre os lbios grossos e o brilho de gordura no queixo. Jennifer nos 
fitava com o maior nervosismo. Tia Clara prendia a respirao, enquanto William baixava os olhos para sua comida. Quase que pude sentir o tremor de seu corpo franzino.
-  um erro no estar preparada direito para ter uma filha - declarou ele, com firmeza.
- Minha me pode ter cometido erros, mas eu no sou um erro. Tambm sou um ser humano com sentimentos. - Joguei os cabelos para trs. - E, de qualquer maneira, ningum 
 perfeito.
- Ouviram isso? Prestaram ateno  maneira como ela fala e pensa? Era de se esperar que se mostrasse mais respeitosa e agradecida. Tento arrumar um novo lar, mas 
ela fala desse jeito, com a maior insolncia.
- No estou sendo insolente, tio Reuben.
- Ela no teve essa inteno - interveio Jennifer. Tio Reuben olhou para ela. At eu me virei para fit-la. Jennifer lanou-me um olhar de advertncia.
-  difcil comear numa nova escola, com novos colegas - acrescentou Jennifer. - Vou ajud-la a fazer novas amizades.
Tia Clara ficou radiante.
- Isso  maravilhoso, querida! Viu s, Reuben? As meninas vo se dar muito bem.
Ainda havia um brilho desconfiado nos olhos de tio Reuben, mas ele soltou um grunhido e continuou a comer. Jennifer ps-se a falar sobre o jogo de basquete como 
se fosse o evento do sculo.
- At mesmo os professores vo ao jogo.  importante mostrar o esprito da escola.
- Acho uma coisa linda - comentou tia Clara. Tio Reuben comeou a falar sobre os seus dias na escola. Por um momento, senti que participava de fato de um jantar 
em famlia. Tia Clara at riu, recordando algumas histrias que ele relatou. Mas tio Reuben parou de falar subitamente e olhou para William.
- Ouviu como  importante se empenhar em atividades esportivas, William. No deveria passar tanto tempo em seu quarto. Seria melhor se de vez em quando ficasse na 
escola depois das aulas e entrasse em algum jogo.
William olhou para mim, com desespero nos olhos tristes.
- Ele  pequeno demais - ressaltei. - Ainda no h times para garotos da idade dele.
- Claro que h - resmungou tio Reuben. - Ele nem quis entrar na Pequena Liga quando teve a oportunidade. Eu ia arrast-lo para o campo, mas a me ficou transtornada.
- Nem todos podem se tornar atletas - insisti. - Algumas pessoas tm outros talentos. William  fantstico em construir coisas.
- Mas o que  isso? Voc no est aqui h um ms, e j quer me dizer do que meu filho  capaz ou no de fazer? Ela  como minha irm, com a boca maior do que o crebro. 
Quando eu disser alguma coisa a William, no quero ouvir voc contestar. Entendido?
Ele bateu com o garfo na mesa para dar nfase. Jennifer apressou-se em interferir:
- Ela no teve a inteno de contestar ningum. Raven, se voc quiser eu a ajudarei com a loua e depois com os deveres de matemtica. Eu disse que a ajudaria.
Ela piscou para mim e tornou a se virar para tio Reuben. Balancei a cabea e continuei a comer. Depois do jantar, quando tio Reuben foi assistir  televiso, Jennifer 
ajudou com a loua. Postou-se a meu lado na pia e sussurrou:
- No pode ficar de boca fechada no jantar? Deixe papai fazer seus discursos sem dizer nada, como eu fao.
- Ele maltrata a famlia.
- Quem se importa? Quer que ele fique zangado e nos proba de ir ao jogo e  festa? Fique de boca fechada.
Jennifer enxugou outro prato, depois virou-se e deixou a cozinha. Onde estava o amor naquela casa?, especulei. O que faz com que esta famlia seja melhor do que 
aquela que eu formava com minha me? Era apenas pelo teto sobre a cabea das pessoas e pela comida na geladeira? Comeava a pensar que preferia os bons dias ocasionais 
com mame do que a constante vida de tenso e medo que existia naquela casa. S que no tinha mais a opo. Talvez eu fosse mesmo um erro. Era uma pessoa que podia 
ser mudada de lugar sem qualquer dificuldade, como se no passasse de um mvel.
No dia seguinte, na escola, Jimmy me deu ainda mais ateno. Andou comigo pelos corredores nos intervalos das aulas, sentou comigo na hora do almoo. Quando perguntei 
se Brad Dillon queria realmente sair com minha prima, ele sorriu e disse:
- No falei que daria um jeito para que voc pudesse ir ao jogo? Vamos pensar apenas em nos divertir. Ficarei olhando para voc na arquibancada.
Jennifer persuadiu tio Reuben a nos levar de carro ao ginsio da escola. S quando estvamos quase chegando  que ela revelou que framos convidadas para uma festa 
depois do jogo. Tio Reuben quase parou o carro para nos levar de volta para casa.
- Mas que histria  essa? Que festa?
Ele berrou to alto que at pensei que podia partir o vidro das janelas. Permaneci calada no banco de trs, enquanto Jennifer desfiava suas mentiras.
- Todo mundo vai.  uma festa com gente mais velha presente, na casa de Missy Taylor. No chegaremos tarde em casa. Ser uma comemorao.
- Por que no me disse nada antes?
- Acabamos de ser convidadas, no foi, Raven? Missy nos ligou.
No falei nada. No queria que ele me culpasse mais tarde. Estava decidida nesse ponto. Vi os olhos de tio Reuben subirem para o espelho retrovisor.
- Quem  essa Missy Taylor?
- Melissa Taylor. Conhece o pai dela.  o dono da Taylor's Steak House.
- No passa de um bar - resmungou tio Reuben.
- Eles tm uma boa casa - insistiu Jennifer. Ele soltou um grunhido.
- No quero que cheguem tarde em casa. Espero vocs at meia-noite. Por falar nisso, como voltaro para casa?
- Temos uma carona combinada. No se preocupe, papai.
Tio Reuben olhou para ela e depois para mim, atravs do espelho retrovisor.
- No me agrada muito. Quem sero os responsveis pela festa?
- A me de Missy estar presente. Pare de se preocupar tanto, papai. Tambm ia a festas quando tinha a nossa idade.
- No, no ia. E s sa com uma garota quando estava no ltimo ano.
Quem soltou um grunhido ento fui eu, pois no podia imaginar uma garota que quisesse sair com ele. Tio Reuben fitou-me pelo espelho e no disse mais nada.
Foi um jogo emocionante. Jimmy teve uma atuao espetacular, roubando a bola vrias vezes, marcando cestas de trs pontos, mantendo o jogo numa diferena de quatro 
pontos. Tambm fez o que prometera: olhou para a arquibancada e me descobriu. Quando ele sorriu, Jennifer olhou para mim com os olhos to cheios de inveja ardente 
que at pensei que pegariam fogo.
No ltimo minuto do jogo, Jimmy interceptou um passe e fez a cesta. Depois, um dos adversrios sofreu uma falta, mas perdeu os lances livres. A bola chegou s mos 
de Jimmy, que fez um arremesso do canto da quadra. A cesta levou o jogo para uma prorrogao de dois minutos. A multido ficou excitada, os aplausos foram ensurdecedores. 
Quando os torcedores comearam a bater os ps, pensei que a arquibancada ia desabar.
A prorrogao foi to emocionante quanto o jogo, cada time marcando at os ltimos trinta segundos, quando Jimmy pegou a bola e protelou o arremesso ao mximo possvel. 
Todos prenderam a respirao, enquanto a bola voava pelo ar e caa direto na cesta, para dar a vitria  nossa escola. Jimmy deixou a quadra nos ombros dos companheiros, 
o heri da escola.
- E voc vai com ele  festa! - murmurou Paula Gordon.
- E no sei por qu - comentei.
Ela trocou um olhar divertido com Jennifer, as duas cobrindo o sorriso com a mo.
Depois, os rapazes se encontraram conosco na arquibancada para assistir ao jogo principal. No foi to emocionante quanto a preliminar. No intervalo, Jimmy sugeriu 
que fssemos logo para a festa.
- Comearemos antes dos outros - disse ele. Embarcamos em dois carros e fomos para a casa de Missy Taylor. O tempo piorara, com uma chuva fina constante. Mas em 
vez de arrefecer nosso entusiasmo, fez todo mundo gritar, ao corrermos para os carros. Quando chegamos na casa, descobri que os pais de Missy estavam em seu bar 
e restaurante. Assim, a primeira mentira de Jennifer se tornou imediatamente evidente. Era uma boa casa, maior que a de tio Reuben e tia Clara. Missy era filha nica. 
A casa tinha quatro dormitrios, alm de um salo de festas no poro, com um bar e uma vitrola automtica.
A msica comeou a tocar assim que chegamos. Brad foi para trs do bar, comeou a servir cerveja e vodca. Eu no queria beber nada. Mas todos bebiam, inclusive Jennifer, 
que alegou estar acostumada a tomar vodca.
- Bebo em casa e depois ponho gua na garrafa para que meu pai no saiba - explicou ela.
Acreditei na declarao. Mas no demorou muito para que ela comeasse a passar mal. Teve de ir ao banheiro para vomitar.
- Ela bebeu depressa demais - disse Jimmy. -  o segredo, beber devagar. Voc est fazendo muito bem. Sabe se cuidar.
Eu tomara apenas meio copo de cerveja. Minha me cairia na gargalhada, pensei.
- Vamos deixar esses perdedores para trs - disse Jimmy, pegando minha mo.
- Para onde vamos?
- J vai ver.
Ele subiu a escada para os quartos.
- No podemos andar por toda a casa desse jeito, no ? - perguntei.
- Claro que podemos. Missy sabe. No tem problema. J tivemos outras festas aqui antes.  uma casa sensacional para festas, porque os pais dela nunca fiscalizam 
a bebida e esto sempre ausentes.
Missy Taylor tambm no deve ter uma grande vida familiar, pensei. J comeava a me perguntar se algum dos alunos da escola tinha uma situao melhor do que a minha.
Jimmy parecia no saber exatamente para onde ir. Levou-me para um dos quartos de hspedes. Assim que passamos pela porta, ele fechou-a e me abraou. Foi o beijo 
mais maravilhoso que eu j experimentara, prolongado, molhado, to firme que me deixou com a nuca doendo. Ele subiu com as mos pelos lados do meu corpo. Beijou-me 
no pescoo.
- Voc  deliciosa, Raven... como eu imaginava.
- No sou um bombom - murmurei, tentando rir. Comeava a me sentir nervosa. Gostava de Jimmy, queria que ele me beijasse. Mas Jimmy avanava to depressa que meu 
corao disparara. As mos cobriram meus seios, os dedos abrindo os botes da blusa. Enquanto fazia isso, ele me levava para a cama. Antes que eu me desse conta, 
estvamos sentados ali. Jimmy encostou os lbios em meu peito, comeou a abrir o suti.
- Espere, Jimmy.
- Esperar o qu?
- No quero fazer isso to depressa. Podemos nos meter numa encrenca.
Ele me fitou com um sorriso.
- No se preocupe. No haver nenhum problema. Tenho o que precisamos. Esperava por isso, no ?
- No. Por qu?
- O que est querendo dizer com no? Concordou em vir at aqui comigo. O que pensava que faramos? Comer pipoca e assistir  televiso? Sabe muito bem o que est 
acontecendo. Sei de tudo a seu respeito. Jennifer contou a todo mundo.
- Como assim? - perguntei, empurrando-o para trs. - O que ela contou a todo mundo?
- Ei, o que est havendo? Isto no  uma cirurgia cerebral. Vamos apenas nos divertir. Voc j fez isso antes.
- No, no fiz - declarei, levantando-me. - No sei o que Jennifer contou a todo mundo, mas no sou o que voc est pensando.
- Ora, pare com isso. No sou de beijar e contar aos outros.
Ele se inclinou para pegar minha mo, mas recuei.
- Tambm no sou... a trepada de uma noite de ningum.
Repeti o que ouvira mame dizer a um de seus amantes. Embora ela fosse isso mesmo com freqncia: a trepada de uma noite.
- - Pensei que fosse mais inteligente que as outras garotas da escola. Por que acha que a convidei para sair na noite do maior jogo do time? Venha para c. No mereo 
uma recompensa?
- No - respondi. - Merece um chute entre as pernas, e  isso que vai receber se tentar me puxar para essa cama.
Meus olhos irradiavam toda a raiva que eu sentia. Ele se intimidou.
- Como quiser. E agora suma daqui. Encaminhei-me para a porta.
- Voc e sua prima so um p no saco - acrescentou Jimmy.
- No me inclua na mesma categoria de Jennifer.
No corredor, avistei Brad saindo de um dos quartos, com um sorriso no rosto, enquanto endireitava as roupas.
- Brad, onde est Jennifer? Vamos para casa agora.
- Tudo bem. J acabei com Jennifer. Ela  toda sua. Ele riu enquanto descia para voltar  festa. Abri a porta do quarto e vi Jennifer estendida na cama, a saia levantada, 
a blusa desabotoada. Dava a impresso de que dormia, mas eu tinha experincia suficiente com minha me para saber que apagara.
- Jennifer, acorde! - Sacudi-a pelos ombros. - Acorde logo! Temos de sair daqui!
- Como? Quem? Raven... O que est fazendo aqui? O que aconteceu? - Ela correu os olhos pelo quarto, tonta. - Onde Brad se meteu? Estvamos nos divertindo, o quarto 
comeou a girar e...
- Vamos logo, Jennifer! Voc tem de se levantar! Puxei-a para ficar sentada. Jennifer estendeu as pernas pelo lado da cama.
- Ai, minha cabea! Quero ir para casa...
-  o que faremos. Foi por isso que vim procurla. Mas primeiro  melhor contar que histrias andou espalhando para todo mundo a meu respeito.- Por favor, Raven, 
s quero ir para casa. Compreendi que no adiantava argumentar com ela no estado em que se encontrava. Passei o brao por sua cintura e ajudei-a a ir at a escada. 
Brad e outros rapazes estavam parados l embaixo. Todos riam histericamente.
-  melhor algum nos levar para casa - pedi. - Jennifer est passando mal. Precisamos ir agora.
- Por que no pedem uma carona na rua? - sugeriu Brad, provocando risadas.
Jennifer e eu descemos. Virei-me para Missy Taylor, que subira do poro para saber por que todos riam.
- Se algum no nos levar para casa, meu tio vai armar a maior confuso para cima de voc, ainda mais com toda essa bebida oferecida aqui.
Ela sorriu.
- Leve as duas para casa, Brad. No quero ter nenhum problema. De qualquer maneira, as duas so crianas demais para estarem aqui. Foi uma idia idiota.
- Foi mesmo - resmungou Jimmy, descendo a escada atrs de ns.
- Vamos embora logo - falei para Jennifer, enquanto passvamos pela porta.
- Tratem de andar depressa - resmungou Brad, furioso. - No quero perder a diverso.
- Detestaramos se voc perdesse a diverso... qualquer diverso - murmurei.
Levei Jennifer para o carro. Ela se esparramou no banco traseiro.
-  melhor ela no vomitar no meu carro - disse Brad.
- Voc no queria realmente traz-la para a festa, Brad. Por que a trouxe?
- Como um favor a Jimmy, para que voc viesse tambm. Acho que voc acabou no fazendo nada, no  mesmo? - Ele sorriu. - Mas no tem problema, porque Jennifer e 
eu nos divertimos.
- Tem razo, ns no transamos.
- Muitas garotas gostariam de sair com Jimmy - comentou ele, como se eu tivesse perdido uma grande oportunidade.
- Aqui tem uma que no est mais interessada. Ele sacudiu a cabea.
- Afinal, de onde voc veio?
Isso mesmo, de onde eu vinha? Mas depois pensei em outra coisa. No interessa de onde eu venho. O que importa  para onde eu vou.A festa acabou
Chovia forte quando chegamos em casa. Brad no me ajudou com Jennifer. Permaneceu sentado, impaciente, enquanto eu fazia o maior esforo para tir-la do carro. Ela 
parecia nem sequer perceber que nos molhvamos cada vez mais, porque no quis ou no pde andar depressa. Praticamente a carreguei do carro de Brad para casa. Ele 
partiu assim que saltamos. Ao chegarmos  porta, ns duas estvamos ensopadas. Eu esperava entrar com Jennifer e lev-la para seu quarto sem que ningum percebesse. 
Mas no instante em que abri a porta, tio Reuben saltou de sua poltrona na sala e veio para o corredor. Arregalou os olhos ao ver Jennifer. Ela estava plida, as 
roupas encharcadas e desarrumadas, os cabelos grudados na testa, os olhos meio fechados. Apoiava-se em mim.
- O que aconteceu com Jennifer? - perguntou tio Reuben. - Qual  o problema? Ela est passando mal?
Jennifer fitou-o, pattica por um momento, em seguida desatou a rir e a chorar ao mesmo tempo. Ele olhou para mim.
- O que aconteceu?
- Ela bebeu vodca na festa - respondi, tomando a deciso de no mentir para proteg-la.
- O qu? Bebeu... vodca? Clara!
Tia Clara saiu correndo do quarto, aparecendo no alto da escada. Vestia apenas a camisola.
- O que foi, Reuben?
- Olhe s para sua filha!
Ele estendeu os braos para Jennifer. Ela parecia ainda mais ridcula com um sorriso idiota, apoiada no meu brao. Revirou os olhos e comprimiu as mos contra a 
barriga.
- Ahn... no me sinto muito bem... Tio Reuben tornou a me fitar.
- Pensei que voc tinha dito que haveria pessoas mais velhas tomando conta da festa.
- No falei nada. Foi Jennifer quem disse isso. Ele franziu as sobrancelhas espessas e escuras. Os olhos se contraram em suspeita.
- Quem deu a vodca a ela?
- Estou passando mal, papai - suplicou Jennifer. - Leve-me para o meu quarto.
- Oh, querida, querida! - exclamou tia Clara, descendo a escada.
Ela pegou o outro brao de Jennifer. Comeamos a subir. Mas tio Reuben estendeu as mos enormes, segurou meus ombros e puxou-me. Quase me levantou do cho quando 
aproximou o nariz do meu rosto e farejou.
- Voc tambm bebeu, Raven.
- S meio copo de cerveja.
- Eu sabia! Tinha certeza de que esse tipo de coisa acabaria acontecendo quando voc veio para a nossa casa!
- No foi culpa minha. - Tirei as mos dele de meus ombros. - Jennifer queria ir  festa mais do que eu. E sabia exatamente o que ia acontecer l.
Se ele soubesse o que mais acontecera... nem mesmo sua preciosa princesa estaria a salvo de sua ira.
Tio Reuben no ouviu nada. Jennifer tropeou num degrau. Tia Clara fez o maior esforo para evitar que ela casse. Ele se adiantou, pegou-a no colo, subiu o resto 
da escada, como se a filha crescida no pesasse mais que um beb.
- No a sacuda tanto, Reuben - advertiu tia Clara, subindo atrs dos dois.
O aviso veio tarde demais. Jennifer comeou a ter nsias de vmito no instante em que chegou ao patamar. Tio Reuben correu para o banheiro.
- Oh, no, no... - balbuciou tia Clara, comprimindo as mos uma contra a outra, as duas contra o rosto. - Como isso pde acontecer, Raven?
- Acho que j aconteceu antes, tia Clara, s que vocs nunca souberam.
Eu no sabia o que exatamente acontecera com Jennifer e Brad. Ou se j acontecera antes com outros rapazes. Mas tinha certeza de que Jennifer no ia querer que os 
pais soubessem disso tambm. Tia Clara mordeu o lbio e continuou a subir. Tio Reuben saiu do banheiro e ordenou:
- Cuide de Jennifer. D um banho frio nela. William viera at a porta de seu quarto, de pijama.
Esfregou os olhos e olhou para a confuso, aturdido.
- O que aconteceu?
- Volte a dormir. - Tio Reuben olhou para mim, furioso. - Quero conversar com voc.
- No fiz nada!
Fui para o meu quarto e fechei a porta. Ele quase a arrancou das dobradias ao abri-la.
- No ouse se afastar de mim desse jeito!
- No foi culpa minha, tio Reuben. Ela queria ir ao jogo e  festa. Persuadiu os garotos a nos convidarem. Assim que chegamos, foi at o bar e serviu-se de um copo 
de vodca, alegando que sabia beber. Mas comeou a passar mal logo em seguida, Acho que bebeu demais, muito depressa, tentando se mostrar. Trouxe-a para casa assim 
que pude.  a verdade.
- Jennifer nunca foi a uma festa assim antes - insistiu ele. - Nunca voltou para casa desse jeito. De alguma forma, tenho certeza que foi tudo culpa sua.
- Acredite no que quiser. No vai adiantar mesmo eu negar.
Virei as costas. Foi um grande erro. Num gesto rpido, sua enorme mo esquerda agarrou-me pelo pescoo, enquanto a mo direita segurava a bainha do vestido. Ele 
me jogou em cima do sof-cama, quase virando-o. Antes que eu pudesse gritar, tio Reuben desafivelou o cinto e tirou-o da cala. Baixou minha calcinha. Foi nesse 
instante que soltei um grito, to alto quando podia.
- Sua desgraada! - berrou tio Reuben. - No vou permitir que venha para c e arruine minha Jennifer! Acabarei com esse comportamento pernicioso esta noite!
O primeiro golpe do cinto me chocou mais do que doeu. No podia acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Com a palma da mo em minhas costas, ele me imobilizava, 
enquanto tornava a golpear com o cinto. Desta vez a dor subiu por minha espinha.
- Requebrando a bunda para os garotos, indo a festas, bebendo e no sei mais o qu. Voc  igual  sua me. Deveria ter levado uma surra antes, mas nunca  tarde 
demais.
Ele me bateu outra vez e mais outra. Entre os gritos e as lgrimas, comecei a sufocar. Era intil tentar escapar. Tio Reuben me imobilizara com sua mo enorme. Finalmente 
parou de me bater, mas por um longo tempo me manteve na mesma posio. Minha bunda ardia em dor. Era como se tivesse sido picada por uma dzia de vespas. Senti-o 
passar a mo direita por minha bunda, mas desta vez com uma surpreendente suavidade. Pensei que devia estar verificando se me deixara bastante machucada. Depois, 
ele tirou a mo esquerda das minhas costas. Tive medo de me virar, de fazer qualquer movimento. Senti que ele se levantava, olhando para mim, a respirao pesada.
- Talvez agora voc se comporte, Raven. Estremeci com os soluos, enquanto ele saa e fechava a porta. No me mexi por muito tempo. Permaneci ali, virada para baixo, 
esperando que a dor diminusse. Virei-me quando isso aconteceu. Doeu mexer as pernas, ainda mais apoiar o peso na bunda. Estendi-me de costas, tentei recuperar o 
flego, enquanto limpava o rosto. Mas acho que me sentia mais perturbada pela afronta e a perda da dignidade do que pela dor. Lentamente, estiquei-me e puxei a calcinha 
para o lugar. Quando me levantei, foi como se ficasse de p numa praia ou na beira de uma piscina, para descobrir que ficara queimada demais. Sentia a pele latejar, 
havia uma sensao de nusea no fundo do estmago.
Tinha vontade de abrir a porta e gritar: "Como ousa fazer isso comigo?"
Cheguei a abrir a porta, mas quando olhei para a casa silenciosa me senti ainda mais apavorada. Se ele fora capaz de me bater daquele jeito, quem sabia o que mais 
poderia fazer? Fui para o banheiro, comprimi uma toalha umedecida com gua quente contra minha bunda e coxas.
No adiantou muito. Voltei para o quarto, em passos cautelosos e lentos. Ouvi tio Reuben gritando l em cima, os soluos abafados de tia Clara. Mal tive foras para 
me despir. Quando finalmente deitei, a dor piorou. Acho que desmaiei em vez de adormecer, pouco antes do amanhecer.
Um choque frio me despertou. Compreendi que estava encharcada de gua gelada. Gritei e sentei, para deparar com tio Reuben, parado na minha frente, com um balde 
nas mos. A gua logo ensopou o cobertor, mas continuei a comprimi-lo contra meu corpo seminu.
- Trate de se levantar e v ajudar Clara a fazer a faxina da semana. No vai dormir at tarde aqui porque se comportou como uma vagabunda, entendido? Eu a ensinarei 
o que significa se comportar mal enquanto estiver morando comigo. - Ele falava com os dentes semicerrados. - No sou sua me. No admitirei essas coisas em minha 
casa. Levante-se!
- J vou levantar. E agora me deixe sozinha. Ele fez meno de me jogar mais gua.
- Reuben, pare com isso! - gritou tia Clara do corredor.
Ele me lanou mais um olhar furioso, depois acenou com a cabea e saiu do quarto. Parou na porta e disse  tia Clara:
- No a mime, Clara. Ela precisa de uma disciplina rigorosa. No passa de um animal selvagem.
Tio Reuben se afastou.
Quando comecei a me mexer, a dor do corpo espancado subiu pela espinha e me fez gritar.
- O que foi? - indagou tia Clara, entrando no quarto. - O que aconteceu, Raven?
- Ele me deu uma surra, tia Clara. Bateu em mim com um cinto ontem  noite.
Ela sacudiu a cabea, negando a possibilidade. Mas virei de lado e levantei o cobertor, mostrando as coxas e a bunda. Tia Clara soltou uma exclamao de horror e 
recuou.
- Oh, no!
- Est to horrvel assim?
- So verges, inchados. Reuben, como pde fazer isso?
Mas ela no falou bastante alto para que o marido ouvisse. Era mais como se fizesse a pergunta a si mesma, como tio Reuben pudera se transformar naquele monstro. 
Havia outras perguntas para se responder, mas aquele no era o momento para faz-las, pensei.
- Vou buscar uma pomada, Raven. Espere aqui. Oh, no, no...
Ela saiu apressada. Tornei a arriar para o travesseiro, a cabea latejando. O que me torturava no era tanto a surra injusta que levara, mas sim a constatao de 
que no havia ningum com quem pudesse contar, agora que mame se metera numa encrenca ainda maior. Tia Clara era fraca demais. No tinha outros parentes a quem 
pudesse recorrer em busca de ajuda. Residia numa cidade estranha, estudava numa escola em que ainda era to nova que no tivera tempo de fazer qualquer amiga ntima. 
Estava mesmo acuada.
- Pronto, querida. Deixe-me ver o que posso fazer. Virei-me para deixar que tia Clara passasse a pomada. Proporcionou algum alvio.
- No posso acreditar que Reuben tenha feito isso - murmurou ela. - Mas ele ficou transtornado. E tem um temperamento explosivo.
- No persuadi Jennifer a beber vodca, tia Clara. As pessoas na festa eram amigas dela, no minhas.
- Sei disso, querida, sei disso.
- Ele no quer acreditar em qualquer coisa negativa sobre Jennifer. - Virei-me quando tia Clara acabou. - No  justo... e no  certo.
- Conversarei com Reuben.
- No vai adiantar, tia Clara. Ele tem uma pssima opinio a meu respeito e de minha me. Odeia-me por estar viva e ser um problema para vocs. Eu deveria ir embora.
- Claro que no. Para onde iria? Nem sequer pense nisso, Raven. Ele vai se acalmar. Tudo acabara bem.
Tia Clara falava como algum que vivesse na Terra do Nunca.
- No vai acabar bem, tia Clara. E ele nunca vai se acalmar.  um ogro. At pior do que isso. Sei por que ele d tanta preferncia a Jennifer.
Pronunciei baixinho a ltima frase. Tia Clara no ouviu, ou fingiu que no ouviu. Tratou de se esquivar.
- Vou preparar alguma coisa quente para comermos. Todo mundo se sentir melhor depois. No precisa se apressar, querida.
Ela se retirou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa. Continuei sentada ali, furiosa. Queria apenas pegar Jennifer e torcer seu pescoo, at obrig-la a confessar 
a verdade. No a deixaria escapar impune com aquilo, pensei. Levara a surra que deveria ser destinada a ela.
Sa do quarto, cautelosa, detestando at o pensamento de me confrontar com tio Reuben agora. No ouvi vozes, apenas o barulho de loua e os movimentos de tia Clara 
na cozinha. Quando dei uma espiada, avistei William sozinho  mesa. Jennifer tivera permisso para dormir at passarem os efeitos da noite passada, mas no eu.
A raiva subiu em mim, como o leite fervendo no fogo por tempo demais. Tive a sensao de que o corao subia para a boca. Sem a menor hesitao, virei-me e subi 
a escada. Se tivesse de arrast-la pela escada abaixo e jog-la aos ps do pai, balbuciando a verdade, faria isso, pensei.
Ao chegar no patamar, vi que a porta do seu quarto estava entreaberta. Comecei a me adiantar, mas parei quando ouvi o som ntido de algum se lamuriando. Ou-
Ouvi a voz de Jennifer, baixa e pattica, parecendo mais com a de uma garota com a metade de sua idade, sem a arrogncia habitual. Cheguei mais perto, curiosa e 
confusa.
- Desculpe, papai. Eu no queria fazer aquilo, mas Raven e as outras garotas comearam a zombar de mim. Disseram que eu era imatura, uma criana, que no deveria 
ir a festas.
- No permita que elas digam essas coisas a seu respeito, princesa. Nem sequer pense nisso.
Se tio Reuben soubesse de toda a verdade, pensei, o que pensaria de sua princesa? Um momento depois, tia Clara me chamou:
- Raven? Voc est a em cima?
Tio Reuben ouviu e apareceu na porta do quarto de Jennifer.
- O que est fazendo aqui? - perguntou-me ele.
- Vim falar com Jennifer.
- Ela no se sente bem esta manh, como voc deve saber. V cuidar de suas tarefas.
- Papai! - gritou Jennifer.
- V logo, Raven!
Comecei a descer. Olhei para trs quase no meio da escada. A porta do quarto de Jennifer estava fechada.
- O que houve, querida? - perguntou tia Clara. Fitei-a em silncio por um momento. Pensei em lhe contar o que acontecera na noite passada.
- No houve nada, tia Clara. J estou descendo. Eu no estava disposta a me rebaixar ao nvel de Jennifer. Pelo menos ainda no.
Tia Clara sabia que havia alguma coisa errada, mas no me pressionou em busca de respostas. Suponho que no queria saber sobre o comportamento de Jennifer, como 
tambm no queria saber sobre tio Reuben aterrorizando William. No fundo de seu corao, tia Clara no podia ser feliz com a pessoa em que Jennifer estava se transformando. 
No podia ignorar a impostura da filha, sua preguia e mesquinhez. Sabia que ela se sentia transtornada pela maneira como William se isolava de todos, at da prpria 
me, e queria o melhor para o filho. Mas o que dizer da filha? O que ela queria para Jennifer?
E foi nesse momento que reconsiderei tudo, parei de odi-la, passei a ter pena dela. S estava na casa h pouco tempo. No tinha idia das coisas horrveis que tia 
Clara tivera de suportar antes da minha chegada. Era fcil perceber que ela tinha medo de tio Reuben, talvez ainda mais do que eu. Bastava ele altear a voz, erguer 
os ombros, e tia Clara comeava a balbuciar e se encolher, cabea baixa, as mos comprimidas contra o peito. Em algumas ocasies, quando ela no sabia que eu a observava, 
podia divisar a profunda tristeza em seus olhos, ou at surpreend-la enxugando uma ou outra lgrima do rosto. Muitas vezes, aps o trabalho encerrado, ela sentava 
na cadeira de balano e ficava se balanando, os olhos abertos, mas sem ver nada. Nem sequer percebia a minha presena.
Nunca duvidei de que ela amava os filhos. Talvez tivesse outrora amado tio Reuben. Mas agora era algum que perdera a independncia, o orgulho e a fora, uma sombra 
oca da personalidade antiga, sem muita semelhana com a moa bonita que aparecia nas fotos, com um rosto cheio de esperana, cujo futuro parecia promissor e maravilhoso, 
sem motivos para pensar que outra coisa alm de rosas e chuva perfumada pudesse atingi-la.
Alguns adultos perdem o controle, pensei, bebem, consomem drogas, tornam-se desvairados e incontrolados quando perdem seus sonhos, como minha me. Outros sofrem 
uma espcie de morte discreta, que mal se nota, s continuam a viver no eco de outras vozes. Suas prprias vozes e sorrisos so levados pelo vento, desaparecem para 
sempre, visveis apenas por um ou dois segundos, no brilho dos olhos e risos radiantes que afloram com as lembranas.
Mais tarde, Jennifer saiu de seu quarto, com um sorriso escarninho e triunfante. Eu tirava o p dos mveis, depois de ter passado o aspirador na sala. Tio Reuben 
tirava um cochilo. William fora para seu quarto, e tia Clara sara para fazer compras. Jennifer arriou no sof, ps os ps em cima da almofada, sem tirar os sapatos. 
Parei de trabalhar e fitei-a, com uma repulsa ostensiva.
- Estou muito cansada - disse ela. - Ainda bem que hoje no tem aula.
- Voc me meteu numa encrenca. Que histrias espalhou na escola a meu respeito? Como pde contar tantas mentiras srdidas?
- Sua reputao a precedeu. - Jennifer soltou uma risada. - No precisei espalhar nenhuma histria.
- Voc  desprezvel, Jennifer. Podia pelo menos ter contado a verdade a seu pai.
- Podia mesmo, mas nesse caso eu  que ficaria encrencada. - Ela riu de novo. - Pode continuar com a limpeza. No vou atrapalhar. S quero que no faa muito barulho.
- Voc  mesmo nojenta. - Minha raiva estava a pique de estourar. - Sob vrios aspectos.
- O que est querendo dizer com isso? Vai me dizer que nunca bebeu demais? Em sua casa, devia ser uma ocorrncia diria.
- Para sua informao, no era, no... pelo menos no para mim.
Fitei-a em silncio por um momento, debatendo-me se tinha ou no coragem para falar. Mas resolvi falar.
- Como pde deixar que Brad fizesse aquilo com voc? No tem nenhum orgulho?
Ela sustentou meu olhar, mal piscando.
- Do que est falando agora, Raven? Que tipo de mentira tenta inventar para se safar da encrenca?
- Voc sabe do que estou falando... e sabe que no  uma mentira.
A expresso de Jennifer no se alterou. Ela desviou o rosto por um instante, mas logo voltou a me fitar, balanando a cabea.
- No sei do que est falando, Raven, mas devo avisar para no dizer qualquer coisa que possa deixar papai furioso.
- Ele j ficou furioso.
Larguei o pano de p, abri a cala e baixei-a, junto com a calcinha. Virei-me para mostrar os verges.
- Que coisa horrvel... - murmurou ela, com uma careta.
- Ele gostou de fazer isso comigo - acrescentei, levantando a cala. -  um sdico... um pervertido.
- Pare com isso! - Jennifer levantou-se de um pulo. - Ele  meu pai. Se resolveu castigar voc, foi porque fez alguma coisa errada.  um homem gentil e se preocupa 
comigo.
- Voc apenas tem medo dele. E deve ter mesmo. Se ele soubesse como se comportou, levaria uma surra ainda pior do que a minha.
Cheguei mais perto e fitei-a nos olhos.
- Pare com isso! - sussurrou ela. - Papai pode ouvir.
Jennifer bateu com o p no cho.
- O que est acontecendo a embaixo? - gritou tio Reuben do seu quarto.
Jennifer hesitou, fitando-me com olhos arregalados e assustados.
- Devo contar a ele? - indaguei. - Devo relatar tudo o que aconteceu ontem  noite?
Ela pensou por um instante, depois decidiu que podia apostar que eu evitaria um novo confronto com tio Reuben.
- Nada, papai - respondeu Jennifer.
- Pois ento falem baixo. Estou tentando descansar um pouco. Quase no dormi na noite passada, graas a algum nesta casa.
- Est bem, papai. Raven pede desculpas.
- Voc  mais doente do que ele - murmurei, sacudindo a cabea.
- Voc apenas sente inveja porque no tem um pai - declarou ela, os olhos contrados e odiosos, mas tambm marejados de lgrimas. - Nunca teve um pai. Tem uma me 
que  uma vagabunda e viciada em drogas... e agora no tem nem mesmo ela.
-  verdade, no tenho nada disso... mas pelo menos ainda tenho algum amor-prprio, algum respeito por mim mesma.
Passei por ela, quase a derrubando com um esbarro.
- E quem mais a respeitaria? - gritou Jennifer, enquanto eu me afastava. -  pior do que uma rf. No  nada. Nem mesmo tem o nome certo!  isso mesmo. Papai me 
contou que sua me nunca foi sequer casada. Portanto, pare de jogar pedras nos outros.  uma filha ilegtima!
Sa da sala e bati a porta.
Jennifer tinha razo,  claro. Era verdade tudo o que ela dissera, mas eu preferia no ser ningum, pensei, a ser algum com um pai como o dela.
- No mandei vocs duas ficarem quietas a embaixo? - berrou tio Reuben.
- Est tudo bem, papai. Vou dar um pulo  casa de Paula. Se houver mais algum barulho, no serei eu.
Um momento depois, ouvi-a sair de casa. Tudo ficou quieto de novo. Respirei fundo e fui at a janela. Ainda estava cinzento e desolado l fora. Jennifer adivinhara 
corretamente. Eu no contaria a tio Reuben. Por que ele acreditaria em mim? Guardaria o segredo dela. Por enquanto.
De repente avistei uma pessoa parada na esquina, debaixo de um bordo copado. Ela usava capa e estava com um leno sobre os cabelos, como minha me costumava fazer.
- Mame? - chamei, meus olhos se enchendo de lgrimas.
A mulher virou-se e desapareceu na outra rua. Corri para a porta da casa. Sa e fui at a esquina. Quando cheguei l, no entanto, no havia ningum  vista. Fiquei 
parada, olhando. Teria imaginado?
- Mame!
Minha voz se perdeu no vento. Ningum apareceu.
E se tivesse mesmo sido mame?, pensei. No fundo do meu corao, gostaria que fosse, s para saber que ela pensava em mim, s para saber que se importava um pouco, 
mesmo que no voltasse para me buscar.
Talvez, pensei, olhando para a rua comprida e vazia, sem sequer um carro passando por ali, talvez eu quisesse tanto que simplesmente imaginara.
Como tudo de bom que eu queria para mim, aquilo no passava de um sonho, uma iluso, outra esperana ligada a uma bolha que estouraria, deixando-me to perdida e 
esquecida quanto antes.
Virei-me e voltei para o inferno que tinha de chamar de lar.

Inocncia perdida

O orientador em minha antiga escola, o sr. Martin, disse-me uma ocasio que  mais difcil olhar para ns mesmos do que para os outros. Alguns professores vinham 
se queixando de mim. Quando tivemos a reunio e ele leu a lista de reclamaes, eu tinha uma desculpa para tudo. Era to boa em me defender que ele acabou se recostando 
na cadeira, fitou-me nos olhos e riu.
- Sei que voc mesma no acredita em metade do que me diz, Raven. E sabe que ao sair daqui ter a certeza de que eu tambm no acredito em voc. A verdade  que 
voc tem sido irresponsvel, negligente e, at certo ponto, autodestrutiva. Quer saber o que eu penso?
Ele inclinou-se para a frente, cruzando as mos sobre a mesa. Tinha cabelos ruivos e olhos to verdes quanto esmeraldas. Pequenas sardas derramavam-se da testa, 
escorriam pelas tmporas, at as salincias dos malares. Sempre tinha um cumprimento cordial para todos. Nunca o vi perder o controle, mas tinha um jeito de fazer 
com que um aluno bagunceiro se sentisse constrangido. Falava suavemente, com um tom de sinceridade, agia como se fosse o irmo mais velho de todos.
Encarava cada desapontamento em termos pessoais e fazia perguntas que foravam o aluno a ser franco.
Meu corao pareceu se encolher dentro do peito, enquanto esperava que ele lanasse sua bomba. Tive de baixar os olhos. Ele tinha um olhar muito penetrante, exigente.
- No, no quero - acabei respondendo -, mas imagino que vai me dizer de qualquer maneira.
- Isso mesmo, Raven. Acho que voc  uma garota rebelde, revoltada com sua vida, e pensa que vai magoar algum se for uma pssima aluna, tiver um pssimo comportamento. 
Mas a nica pessoa que vai sair magoada ser voc.
Virei-me para olhar alm dele, pela janela da sala, porque podia sentir que as lgrimas afloravam sob minhas plpebras. Poucas pessoas eram capazes de penetrar atravs 
do muro que eu erguera em torno dos meus verdadeiros sentimentos. Sempre que algum o fazia, sentia-me um tanto nua e desamparada, quando era menor.
- Sua me no responde a nenhum dos meus telefonemas ou cartas. Nunca esteve disponvel para se reunir com seus professores.
- No me importo se ela vem aqui ou no - declarei, em tom rspido.
- Claro que se importa. - Ele tornou a se recostar. - s vezes, talvez at na maior parte do tempo, no podemos fazer nada sobre as cartas que recebemos. Apenas 
tratamos de tirar o maior proveito e continuamos no jogo. No adianta se lamentar a respeito, no  mesmo? E voc sabe disso.
- No sei do que est falando, sr. Martin. Fui mal em algumas provas. No tem nada demais. Os professores sempre implicam comigo porque sou um alvo fcil. Os outros 
alunos conversam na aula, passam bilhetes, esquecem os livros e fazem outras coisas, mas no recebem nem a metade das queixas. O sr. Martin sorriu.
- Quando eu jogava no time de basquete da universidade e dava desculpas assim ao meu treinador, ele comeava a erguer e a baixar as pernas como se andasse por um 
pntano. Entende o que estou dizendo?
Senti um aperto na garganta e baixei os olhos.
- Muito bem, Raven. No vou mant-la aqui por mais tempo. Pense nas coisas que falamos, e saiba que estou aqui  sua disposio, se precisar conversar.
Levantei-me apressada, praticamente fugindo de seus olhos penetrantes e perguntas inquisitivas. Fui para o banheiro e me contemplei no espelho. Tinha os olhos vermelhos 
da tenso de conter as lgrimas. O sr. Martin estava certo: era mais difcil olhar para mim mesma, ainda mais depois que ele erguera um espelho de realidade e verdade.
Agora, recordando a cena, compreendi que era muito mais difcil, se no mesmo impossvel, Jennifer se contemplar num espelho. Todos na casa do meu tio sofriam da 
mesma cegueira auto-imposta, especialmente tia Clara, que no apenas desviava e baixava os olhos, mas tambm fingia que no sabia que havia qualquer coisa errada.
Havia deixado a sala do sr. Martin sentindo ainda mais pena de mim mesma e achando-me um pouco culpada. Muitos alunos que se comportavam mal ou tiravam notas baixas 
deixavam a sala do sr. Martin furiosos por ele obrig-los a se olharem naquele espelho. Eu deveria ter esperado o mesmo tipo de comportamento de Jennifer. Afinal, 
eu ameaara denunci-la a tio Reuben.
O resto do fim de semana transcorreu como sempre. Mantive-me apartada, fiz as tarefas da casa e os deveres da escola. Tia Clara sempre me convidava para ir assistir 
 televiso na sala com a famlia, mas nas poucas vezes em que aceitei o convite senti os olhos de tio Reuben me observando com hostilidade. Quando o fitava, ele 
assumia no mesmo instante uma expresso de repulsa ou raiva. Fazia com que eu me sentisse uma presena incmoda. Era como se eu devesse lhe agradecer por me deixar 
respirar o prprio ar dentro de sua casa. Sabia que ele nunca me daria qualquer coisa de bom grado ou com algum afeto. No que eu quisesse algo de tio Reuben. Doa 
mais que eu tivesse de depender dele. Era de fato o que ele chamava de nus das relaes familiares. S que no era ele quem carregava todo o peso daquela aflio, 
e sim, eu.
Se eu precisava de qualquer lembrete do constrangimento entre ns, Jennifer se mostrava mais do que feliz em fornec-lo. Ela me ignorou durante a maior parte do 
domingo, mas na segunda-feira, como sempre, juntou-se s amigas na parada do nibus, fingindo que eu no sara da mesma casa. Nossa breve amizade, para permitir 
sua ida  festa, acabara para sempre. Ironicamente, porque tomara um porre e vomitara e porque transara com Brad na casa de Missy Taylor, ela se tornou uma herona 
ainda maior para as amigas. Todas aguardavam ansiosas pelo relato dos detalhes principais, como se vomitar tudo o que havia no estmago fosse uma grande faanha.
Sentei na frente do nibus com Clarence, mas foi difcil ignorar as risadas estrondosas que partiam de Jennifer e seu cl l atrs. S no meio da manh  que comecei 
a compreender por que tantos alunos sorriam para mim, riam nas minhas costas, e balanavam a cabea. Pouco antes do almoo, alguns me dirigiram a palavra, ao passarem 
por mim e Terri no corredor:
- Ouvi dizer que teve um fim de semana sensacional, Raven.
- Estou surpresa que ainda consiga andar.
- Quem  o prximo na sua lista?
-  verdade o que dizem sobre as mulheres com sangue latino?
Ningum esperava por uma resposta. Continuavam a andar, as risadas em sua esteira. As perguntas me eram jogadas como taas de tinta vermelha, visando a manchar e 
estragar.
- Do que esto falando? - perguntou Terri.
- No tenho a menor idia.
Mais tarde, quando sentamos no refeitrio, relatei o que acontecera na festa de Missy Taylor.
- Ento voc rejeitou o Mister Maravilha - disse Terri. - Ele no vai deixar ningum saber disso.
- Como assim?
Vi que Jimmy e Brad haviam se juntado a Jennifer e suas amigas a uma mesa. Todos falavam depressa e riam muito. De vez em quando olhavam para mim. Algum fez outro 
comentrio, provocando gargalhadas. Parecia at uma trilha sonora de risos na televiso. Senti um calor se irradiar da nuca e espalhar-se pelo rosto.
- No sei o que est acontecendo, Terri, mas posso garantir que j vai acabar.
- O que pretende fazer? - perguntou ela, quando me levantei.
- Observe.
Comecei a atravessar o refeitrio. Ouvi os risos e conversas cessarem, percebi que todos se viravam em minha direo. As pessoas  mesa de Jimmy pararam de falar 
e levantaram os olhos.
- Ouvi dizer que anda inventando histrias a meu respeito, Jimmy.
Ele deu de ombros.
- Em alguns casos, no  preciso inventar nada. Jennifer soltou um grunhido. Suas amigas riram.
- No seu caso, Jimmy, imagino que noventa e cinco por cento so inventados. Depois de passar apenas uns poucos minutos a ss com voc, posso compreender por que 
est sempre procurando por uma garota nova.
Os sorrisos se desvaneceram. Ouvi algum inspirar fundo. Jimmy virou-se, o rosto comeando a ficar vermelho.
- O que est querendo dizer com isso?
- Voc  muito melhor no basquete do que no amor. Acho que desperdia todos os seus talentos na quadra. Se no parar de inventar histrias srdidas a meu respeito, 
contarei a todo mundo por que deixei o quarto to depressa.
Por um momento, Jimmy foi incapaz de responder. Todos  mesa olhavam de um para o outro, os olhos se arregalando numa nova percepo. Eu sabia que no havia maneira 
melhor de fazer um garoto como Jimmy ter medo do que atacar sua virilidade e sua reputao exageradas.
- Como? - foi tudo o que ele pde balbuciar. Comecei a me virar quando Jennifer se intrometeu.
- Pare de tentar se proteger, Raven.  voc quem sempre faz besteira.  por isso que est aqui, vivendo como uma criada em minha casa.
Suas amigas riram. Fiquei paralisada por um instante, sentindo que minha espinha se transformava em ao frio. Depois, tornei a me virar lentamente.
- Eu? Me proteger? "Por favor, papai", imitei. "No queria vomitar por toda a casa. Foi Raven quem me obrigou."
- Cale-se! - gritou ela.
- "Sou uma boa menina" - arremedei. - "A boa menina do papai."
Todos prenderam a respirao. Jennifer ficou to vermelha que pensei que poderia pegar fogo. Em vez disso, ela se inclinou, pegou uma tigela de sopa de tomate pela 
metade, e jogou em mim. A sopa quente respingou em meu rosto e nas roupas. A tigela caiu no cho e quebrou. O sr. Wizenberg, monitor do refeitrio, veio correndo.
- O que est acontecendo aqui? Quem fez isso? Todos  mesa olhavam para ele. O sr. Wizenberg virou-se para mim.
- Quem jogou isso em voc?
- Ningum. Voou da mesa sem que ningum tocasse.
Eu no seria dedo-duro, nem mesmo para meter Jennifer numa encrenca.
Frustrado, o sr. Wizenberg mandou todos  mesa e a mim para o gabinete do sr. Moore. Incapaz de fazer algum falar, o sr. Moore deixou todos detidos e mandou cartas 
para as famlias. Como era de se esperar, todos me culparam.
Antes de nossas cartas chegarem, Jennifer foi falar com tio Reuben, chorando, alegou que fora eu quem comeara tudo. Desta vez tia Clara interveio antes que ele 
pudesse tirar o cinto.
- No faa isso, Reuben - declarou ela. - Talvez a culpa no seja toda de Raven, e voc j a puniu o suficiente.
Tio Reuben ficou mais furioso com a interferncia de tia Clara do que com qualquer outra coisa, mas no disse nada. Apontou um dedo para mim e sacudiu a mo, sem 
falar. Para mim, isso era mais assustador. Ele parecia monstruoso, capaz de matar algum. Retirei-me assim que pude, e deixei-o descarregar sua raiva em tia Clara.
- Obviamente  ela quem precisa de disciplina, Clara. No podemos mant-la aqui se no tentarmos controlar seus pssimos hbitos. Olhe s para todos os problemas 
que ela criou no pouco tempo em que est conosco. Nunca mais interfira, entendido? Entendido?
- Est bem, Reuben. Conversarei com ela.
- Falar no ajuda em casos assim. Ela  muito mimada, j foi longe demais. Sou sua nica esperana.
Se ele era minha nica esperana, eu estava mesmo perdida.
Quando as cartas chegaram, tio Reuben pregou a minha no lado de dentro da porta do meu quarto.
- No ouse tirar isso da, entendido? Quero que a veja todas as manhs, cada vez que sair do quarto.
- Tambm vai pregar a carta de Jennifer na porta?
- No se preocupe com Jennifer. Trate de se preocupar apenas com voc mesma. J  o suficiente.
No pude evitar que a emoo transparecesse em meu rosto. Vi-o inclinar a cabea ao me fitar, os olhos focalizando-me como pequenos microscpios, para esquadrinhar 
meus pensamentos.
- Pode ter enganado Clara com aquela sua encenao de doura - disse ele, num sussurro rouco e veemente -, mas conheo sua me. Conheci seu pai. Sei de onde voc 
vem. No pode me enganar.
- Se minha me era to ruim, por que voc tambm no ?  irmo dela. Saiu dos mesmos pais. E foram criados juntos, no  mesmo? Voc no  perfeito. Fez algumas 
coisas horrveis.
No instante mesmo em que disse isso, compreendi que fora longe demais. Mas no sabia o quanto fora longe. Ele avanou pelo quarto.
- O que ela lhe contou? Inventou alguma mentira a meu respeito? Diga logo. Despeje seu lixo. Vamos, comece a falar.
Sacudi a cabea.
- No h nada para contar.
Meu corao batia forte. Tio Reuben parecia se expandir, ficar mais alto, mais largo.
- Nunca fiz nada com ela. E se algum dia eu ouvir voc dizer qualquer coisa, juro que arrancarei sua lngua.
Fitei-o nos olhos, depois baixei a cabea. Ele continuou a pairar ali, como um gato gigantesco. Quase podia ouvir meus ossos triturados sob o seu bote.
- Ela era nojenta, desfilando nua de um lado para o outro, dizendo tudo o que queria, tentando me atrair para seus costumes pervertidos. Pois eu lhe dei uma lio. 
Foi bom quando ela fugiu... s que ela no foi bastante longe.
Quase que dava para sentir sua respirao quente no alto da minha cabea, mas no me mexi, no contra um msculo. Tentei parar de respirar, fechei os olhos e fingi 
que me encontrava em outro lugar. Depois do que pareceu uma eternidade, ele virou-se e saiu do quarto. Foi como se uma aragem fria o seguisse, deixando-me num vcuo 
horrvel, silencioso e escuro. Tinha medo de pensar, at de imaginar a que tipo de coisas ele se referia.
Subitamente, senti que tinha de respirar um pouco de ar fresco. Vesti um suter e sa. Todas as casas em nossa rua e na rua seguinte eram bastante espaadas. Havia 
apenas seis ou sete em cada rua. No momento, no havia ningum  vista. Cruzei os braos sob os seios e fui andando de cabea baixa. Estava to absorvida em meus 
pensamentos que nem notei que atravessara a rua.
-Ei!
Levantei a cabea ao ouvir o chamado e deparei com Clarence Dunsen.
- Pa-para... onde... vo-voc vai?
Ele tinha um saco de lixo na mo e acabara de levantar a tampa da lata ao me ver. Parei e olhei ao redor, surpresa ao descobrir como me afastara de casa.
- Estou apenas dando uma volta - murmurei. Clarence ps o lixo na lata e fechou-a. Depois, continuou parado ali, olhando para mim.
-  aqui que voc mora?
Apontei com a cabea para a casa modesta, em estilo de rancho. Tinha paredes cinzentas, as janelas de um cinza mais escuro, um gramado grande, com sebes ao longo 
da calada, um bordo vermelho na frente. A porta da garagem estava aberta, deixando  mostra uma caminhonete e uma pickup. Avistei tambm uma bicicleta pendurada 
na parede da garagem. Em outra parede havia algumas ferramentas, como alicates e chaves de porca.
- , sim. Mo-moro no... po-poro.
- No poro? - Sorri para ele. - Como assim?
-  onde eu... dur... durmo e fao coisas. - Clarence tambm sorriu. - Tenho uma... entrada independente.
Balancei a cabea, ainda confusa.
- Ve-venha... comigo... eu mostrarei. Clarence me exortou com um gesto. Deu alguns passos para o lado da casa e esperou. Pensei por um momento, corri os olhos pela 
rua vazia, depois segui-o para os degraus que levavam a uma porta de poro. Ele apontou.
- Aqui.
- Voc mora aqui?
- Ahn... quer... ver?
Ningum jamais me falara sobre aquilo, nem mesmo Jennifer. Mas tambm ningum prestava a menor ateno a Clarence, exceto para rir de sua gagueira. Tornei a acenar 
com a cabea e desci os degraus. Ele abriu a porta para um pequeno quarto, que continha uma escrivaninha e uma cadeira, uma cmoda, um armrio e uma mesa pequena, 
em cima da qual havia um aparelho de televiso. O cho era coberto por um linleo marrom-escuro, com um pequeno tapete cinzento oval ao p da cama. Embaixo da cama 
estavam alguns pares de sapatos e tnis. Havia dois aquecedores eltricos nos lados do quarto.
As roupas espalhavam-se por toda parte, camisas na cadeira, uma cala pendurada na porta do armrio, camisetas dobradas em cima da televiso. Vi revistas no cho, 
alguns livros e caixas de quebra-cabeas.
- Por que dorme aqui embaixo, Clarence?
O quarto no tinha janelas e era iluminado por uma lmpada no teto e um abajur de p ao lado da escrivaninha.
- O novo ma-marido... de minha me... arrumou pa-ra o beb... ficar no meu... antigo quarto.
As paredes cinzentas de cimento tinham vrias rachaduras. O quarto parecia mido e bolorento. As vigas do cho eram visveis por cima de ns, as teias de aranha 
se destacando. Era mais uma masmorra do que um quarto, pensei. Por que sua me o queria ali embaixo? Dava para ouvir os passos por cima, o som de uma cadeira arrastada 
pelo cho, depois o choro de um beb.
-  uma menina... Donna Marie - informou Clarence.
Balancei a cabea e continuei a correr os olhos pelo quarto mido e sujo.
- Onde fica o seu banheiro?
- L em ci-cima. Tem de ir?
- No - respondi, sorrindo. - Apenas queria saber. Faz quebra-cabeas?
Indiquei as caixas no cho.
- s vezes. De-depois... de fazer um, desmonto e fao de novo.
" No pude deixar de rir. Clarence riu tambm. Foi nesse instante que a porta do quarto se abriu.
Um homem alto e magro, de cabelos escuros, camiseta branca e jeans, chinelas velhas nos ps, entrou no quarto. Tinha a barba por fazer, o queixo quadrado, com uma 
fenda na ponta, nariz fino, sob olhos castanhoescuros cansados, que brilharam de interesse quando se fixaram em mim.
- Quem  voc? - perguntou ele.
- Sou Raven Flores.
- Quem  ela, Clarence? - O homem sorriu. - Sua namorada?
- Ahn... no...
Clarence ficou vermelho. Olhou para mim com uma expresso de terror.
- Sou apenas uma vizinha. Estou morando com meu tio.
- Quem  ele?
- Reuben Stack.
O sorriso se alargou.
- Reuben, hem? Ele nunca mencionou voc. Trabalhamos juntos. - Ele olhou para Clarence. - Estvamos sem saber por que voc no voltou depois que saiu com o lixo. 
 hora do jantar.
O homem virou-se para mim.
- Detesto interromper. Volte mais tarde, se quiser.
- No tem problema. Eu o verei amanh, Clarence.
- Tem certeza de que no vai voltar esta noite? - indagou o padrasto.
Ignorei-o e me encaminhei para a porta. Sua risada me acompanhou. Sa de l sentindo mais pena de Clarence do que de mim. Onde estava aquela famlia mgica da Amrica, 
a que eu via na televiso? Pode-se ter pais e ainda assim ser um rfo, pensei.
- Onde voc se meteu? - perguntou tio Reuben quando entrei em casa.
- Fui dar uma volta.
-  hora do jantar. Voc tem de ficar aqui para ajudar.
Segui para a cozinha.
- Jennifer j ps a mesa - informou ele.
- Sozinha?
- No banque a engraadinha. Apenas ajude Clara a servir a comida. E da prxima vez avise quando resolver sair de casa. Entendido?
- Sim, senhor.
Quase bati continncia. O olhar de tio Reuben se tornou ainda mais ameaador. Continuei para a cozinha, onde encontrei tia Clara pondo a comida nas travessas para 
servir. Tive o pressentimento de que tio Reuben j a culpara por eu no estar presente.
- Desculpe o atraso, tia Clara, mas...
- Basta levar isto, querida - disse ela, entregando-me a travessa com o pur de batata.
Quando entrei na sala de jantar, encontrei Jennifer sentando-se, com um sorriso satisfeito. William parecia to dcil e derrotado como sempre. Tio Reuben estava 
sentado em seu trono, os braos grandes em cima da mesa, esperando como o rei que pensava que era.
- J era tempo - disse Jennifer. - Estou faminta. Pus a mesa para voc.
Ajeitei a travessa no descanso e olhei para os pratos e talheres.
- Os garfos esto no lado errado, Jennifer.
Pisquei para William, que me ofereceu um pequeno sorriso. Voltei  cozinha antes que Jennifer pudesse dar uma resposta.
Foi outro jantar com tio Reuben apresentando suas opinies sobre as mulheres e os jovens. O mundo estava fora de controle. Os valores eram destrudos, a prpria 
estrutura do pas desmoronava. Era tudo culpa das mulheres que queriam demais e das crianas que no eram disciplinadas corretamente. Ningum o contestou. Tentei 
abaf-lo com meus pensamentos, mas ele berrava e batia na mesa quando queria impor suas concluses. Tia Clara limitou-se a dizer:
- No se irrite quando estiver comendo, Reuben.
Apressei-me em limpar tudo depois. Como sempre, Jennifer levantou-se e subiu sem sequer levar seu prato para a pia. Percebi que William queria ajudar, mas tinha 
medo de irritar o pai, que acabara de declarar que as mulheres pressionavam os homens para fazerem seu trabalho, o que era uma das coisas erradas no pas.
Depois que acabei, fui para meu quarto, a fim de comear os deveres da escola. Podia ouvir Jennifer na sala de estar assistindo  televiso com tio Reuben e tia 
Clara. Sua risada soava alta e detestvel. Por que no lhe perguntavam sobre seus deveres da escola? Ouvi o telefone tocar. Poucos minutos depois, a porta do meu 
quarto foi aberta.
Tio Reuben estava parado ali.
- O que ? - perguntei.
- Onde voc esteve antes? - Ele entrou no quarto e fechou a porta. - Hem?
- J disse. Sa para dar uma volta.
-  mentira. Estava na casa de Dunsen, no ?
- Encontrei Clarence, que quis me mostrar seu quarto no poro.
Tio Reuben sorriu friamente e balanou a cabea.
- Voc sabe que o garoto  retardado.
- Ele no  retardado. Apenas tem um problema de fala.
-  mais fcil se aproveitar de algum assim. O que voc tentava fazer? Seduzi-lo?
- No! - gritei. - Deixe-me em paz!
- Tenho de receber um telefonema de um dos homens que trabalham sob as minhas ordens, exultando porque surpreendeu voc com seu enteado? Tenho de aturar isso? O 
que voc est fazendo com a nossa reputao na vizinhana?
Virei-me, as lgrimas escorrendo to depressa e com tanta intensidade que desta vez no pude cont-las. No era eu quem transava com os rapazes, mas acabava sendo 
a acusada!
- Parece que voc precisa de mais uma lio... e  mais uma lio que vai receber. - Ele tirou o cinto. - Deite-se agora.
- No! Deixe-me em paz!
- Se obedecer agora, darei apenas seis golpes. Se resistir, sero dez. - Tio Reuben pairava entre mim e a porta. No havia como escapar. - E ento? O que prefere?
- No fiz nada de errado! Por favor, no me bata!
- Parece que sero dez - murmurou ele, avanando.
-No!
Levantei-me e recuei para a cama, as mos erguidas.
- Reuben, o que est acontecendo a? - perguntou tia Clara.
- No se meta, Clara, ou ser pior para todo mundo. Ele virou-se para mim. Eu no conseguia parar de chorar. No queria levar uma surra de cinto, muito menos dez 
golpes. O que podia fazer? Fui para a cama.
- Abaixe - ordenou ele.
Chorando ainda mais, enfiei as mos por dentro da saia e baixei a calcinha. Tio Reuben me empurrou para a frente e me imobilizou de novo, enquanto me batia seis 
vezes com o cinto.
- No pode ir para o quarto de um garoto sozinha. E fique longe daquele retardado, entendido?
Eu no podia falar. Mordi o cobertor e esperei. Senti-o passar a palma da mo por minha bunda, depois o ouvi se encaminhar para a porta e sair. Levei algum tempo 
para recuperar o flego e levantar a calcinha. Fiquei estendida na cama, amaldioando-o muitas vezes, rezando para que casse da escada e quebrasse o pescoo. Fantasiei 
me postar por cima de seu cadver, cuspindo e chutando. Pensei que no fosse possvel odiar algum tanto quanto eu o odiava.
A porta foi aberta de novo. Virei-me, dominada pelo terror. Era Jennifer. Ela parou ali, balanando a cabea.
- Clarence Dunsen? Voc saiu com Jimmy Freer e depois foi procurar Clarence Dunsen?
- No. Ela sorriu.
- Espere s at todo mundo saber disso. Se eu fosse voc, rastejaria para baixo da cama e no sairia mais.
Jennifer se retirou, rindo. Continuei deitada, o corpo parecendo um vidro vazio que se enchia com o lquido vermelho do dio. Quase duas horas depois, ouvi todos 
subirem para se recolher. Esperei mais um pouco. Fui at a porta, os punhos cerrados, o peito to tenso que o corao tinha dificuldade para bater. Sem fazer barulho, 
mas determinada, subi a escada. Estava tudo escuro. A porta do quarto de tio Reuben e tia Clara fora fechada, assim como as portas de Jennifer e William. Pude ouvir 
Jennifer falando baixinho pelo telefone e depois rindo.
Abri sua porta. Ela levantou os olhos do cho, onde estava enroscada.
- O que voc quer, Raven?
- Se espalhar essa histria a meu respeito, contarei a seu pai o que realmente aconteceu na noite da festa de Missy.
Fechei a porta e desci, de alguma forma esquecendo e ignorando a surra de cinto que levara.
No suporto mais

Jennifer estava to quieta na manh seguinte que me deixou nervosa. No olhava para mim; e se por acaso o rosto se virava em minha direo, era como se olhasse atravs 
de mim. Parecia cansada, tinha olheiras. Imaginei que dormira com minha ameaa, que a perturbara, fazendo com que se revirasse durante a noite, em sucessivos pesadelos.
Minhas mos tremiam tanto que quase larguei um prato. Tio Reuben estava preparado para me atacar se isso acontecesse. Olhava para mim com fascas nos olhos sempre 
que eu batia com um pires ou xcara. Jennifer manteve os olhos abaixados. De vez em quando levantava o queixo, o que me permitia ver sua boca contrada. Ela comeu 
e pegou suas coisas quase sem falar.
- Est se sentindo bem, Jennifer? - perguntou tia Clara.
Eu no fora a nica que notara uma mudana acentuada em seu comportamento. Em geral, ela no conseguia permanecer calada. Falava sem parar, como algum que adora 
o som da prpria voz e acha que todos os outros tambm adoram.
Jennifer me lanou um olhar furioso logo depois da pergunta de tia Clara. Tanto que esperei que ela desatasse em novas acusaes, revelando minha ameaa. Respirei 
fundo, na expectativa.
- Estou bem - murmurou ela. - Apenas um pouco cansada.
- Espero que no tenha ficado doente - disse tia Clara.
As sobrancelhas de tio Reuben projetaram-se para cima, como se puxadas por cordes.
- Todos eram saudveis nesta casa at agora - murmurou ele.
Tio Reuben realmente me considerava como uma espcie de germe ambulante e falante, uma portadora de doenas, uma pessoa cheia de infeco e podrido?
- Talvez voc devesse ficar em casa hoje - sugeriu tia Clara.
- No d - respondeu Jennifer, com um suspiro profundo e doloroso. - Tenho provas para fazer. No posso perder nenhuma aula.
Por favor, no venha com essa para cima de mim, tive vontade de dizer. Desde quando ela se importava com as aulas, por menos que fosse? Colava nas provas e copiava 
os trabalhos das outras. E, de repente, a pobre Jennifer assumia um papel de mrtir? Pensei agora que tudo o que eu comera no ficaria no estmago. Levantei-me e 
comecei a tirar a mesa.
Jennifer saiu de casa na minha frente, como sempre. Com as tarefas que tinha de concluir - ajudar a lavar a loua do caf da manh, limpar a mesa, arrumar meu pequeno 
quarto - quase perdi o nibus. Tia Clara me ajudou. Sa de casa e desatei a correr pela calada, no instante em que o ltimo estudante embarcava no nibus. Como 
sempre, havia um lugar vazio ao lado de Clarence. Ele levantou os olhos para mim, tmido. Sorri e sentei ao seu lado. Jennifer estava l atrs, com as amigas.
- Sin... sinto... muito... por meu... pa-padrasto... - murmurou Clarence. - Ele  um grosso.
- Est tudo bem, Clarence. No se preocupe com isso. No dei muita importncia a ele.
- Ele tem uma men... mente srdida. Disse piadas depois.
- Onde est seu pai? Clarence deu de ombros.
- No sei. Talvez esteja na Califrnia. No me lem... lembro mais dele.
Uma cara triste, Clarence olhou pela janela do nibus. Caa uma chuva fina, as gotas escorrendo pelo vidro, espalhando-se para formar o que parecia com teias de 
aranha. O cu cinzento fazia a manh parecer mais desolada do que o habitual. Todos no nibus pareciam desanimados. As conversas eram em voz baixa, havia pouco riso. 
Quando olhei para trs, avistei Jennifer me fitando com uma expresso furiosa, segurando seus livros e balanando com os movimentos do nibus. At mesmo suas amigas, 
normalmente exuberantes e barulhentas, pareciam meio adormecidas.
O interior da escola foi se tornando mais e mais escuro  medida que as nuvens se adensavam l fora. Alguns corredores no eram to bem iluminados quanto outros. 
Assim, eu tinha a sensao de que andava por tneis ao ir de uma sala para outra naquela manh.  medida que a chuva se tornava mais forte, despejando-se em lenis 
contra as paredes e janelas da escola, os estudantes foram ficando sonolentos. At mesmo os professores pareciam ter de fazer um esforo para demonstrar algum entusiasmo 
em seu trabalho.
Pouco antes do almoo, no entanto, a chuva cessou. O sol rompeu as nuvens. Acabou com a sonolncia.
As vozes se tornaram mais altas. Os alunos passaram a andar mais depressa, a brincar uns com os outros.
Terri e eu fomos juntas para o refeitrio, conversando sobre um filme prestes a estrear. Eu costumava ir ao cinema de vez em quando no tempo em que morava com mame, 
mas agora no sabia quando poderia ir de novo.
Subitamente, ouvimos uma exploso de risadas logo depois de um canto do corredor. Havia pelo menos uma dzia de rapazes agrupados ali. Quando se viraram, vi que 
Jimmy era um deles. Fiquei tensa no mesmo instante. Quando eles se dispersaram, descobri que estavam cercando o pobre Clarence Dunsen, que parecia apavorado.
- L vem... ela... ela, Clarence - disse Jimmy. - Por que no diz a ela como... como vo-voc a ama?
Todos os outros caram na gargalhada.
- Deixem-no em paz - ordenei.
- No o estamos incomodando - disse Jimmy, bastante alto para que todos ao redor ouvissem. - Clarence apenas nos contava sobre o encontro que vocs dois tiveram 
no quarto dele.
- Seu filho da puta!
Minha reao fez com que ele e os outros rissem ainda mais alto. Segui apressada para o refeitrio, com Terri atrs de mim.
- Que histria  essa, Raven?
- Minha prima fez outra das suas.
Furiosa, larguei os livros em cima da mesa e cruzei os braos.
- No faa nada violento - aconselhou Terri. Ela acenou com a cabea na direo do sr. Wizenberg, que me observava como um coelho nervoso. Procurei Jennifer e avistei-a 
em uma mesa no outro lado do refeitrio, cercada por sua corte. Parecia muito satisfeita. Tive vontade de arrancar seus olhos.
Os rapazes entraram no refeitrio atrs de Clarence, que tentou chegar  sua mesa habitual. Todos entoavam:
- Eu... a-amo, vo-voc... Ra-Raven.
Todos no refeitrio se viraram. Clarence, vermelho, arriou em sua cadeira, olhando para baixo.
- Quietos! - gritou o sr. Wizenberg. - Eu disse quietos!
Os rapazes pararam e seguiram para suas mesas, rindo e se dando os parabns com tapinhas nas costas. Jimmy foi procurar Jennifer, e os dois riram juntos.
- O que est acontecendo? - perguntou Terri.
Relatei o que ocorrera, mas no contei que ameaara revelar a tio Reuben o relacionamento entre Jennifer e Brad. No podia cair ao nvel de Jennifer. Talvez ela 
soubesse disso desde o incio. Quando Jennifer se levantou para entrar na fila da comida, tambm me ergui. Terri me segurou pelo brao.
- Cuidado - advertiu ela. - Desta vez pegar uma suspenso.
Acenei com a cabea, mas continuei em frente.
- Voc  uma pessoa horrvel, Jennifer - falei, indo me postar atrs dela. - No se importa com quem magoa?
- No sei do que est falando. No contei a ningum. - Ela jogou os cabelos para trs. - Clarence gabou-se de voc para alguns amigos e a notcia se espalhou.
-  mentira. Voc  uma tremenda mentirosa. Dei um passo  frente. Ela recuou.
- Se causar mais algum problema, Raven, papai vai p-la na rua.
- Prefiro ficar na rua. H menos sujeira.
Um fluxo de pnico surgiu em seus olhos, enquanto ela se virava para verificar se algum nos ouvia.
- No ouse dizer qualquer coisa horrvel a meu respeito ou de minha famlia, Raven. No ouse.
A voz de Jennifer saiu como um sussurro fraco.
- Voc  nojenta.
Balancei a cabea. Algumas garotas prestavam ateno a ns duas. Hesitei.
- No se preocupe, Jennifer. No vou me arrastar na lama com voc.
Ela sorriu, um sorriso malicioso e rancoroso. Deixei-a e voltei para minha mesa, frustrada, a raiva fazendo meu sangue ferver.
- Calma - murmurou Terri.
Ela ps a mo em meu brao e acenou com a cabea para o fundo do refeitrio. O sr. Wizenberg aproximara-se por trs de mim. Balanou por um momento sobre os calcanhares, 
com as mos nas costas. Lanoume um olhar irritado de advertncia, depois continuou a atravessar o refeitrio.
- Todos pensam que sou a causa dos problemas aqui - murmurei. - No  justo.
- Ela vai receber o que merece - previu Terri. - Algum dia.
Por enquanto, eu tinha de deixar tudo como estava. Fui para minhas aulas depois do almoo. O resto do dia passou mais depressa. Senti-me aliviada quando a campainha 
da ltima aula tocou e fomos pegar o nibus. Hesitei ao embarcar. Sabia que se sentasse ao lado de Clarence, Jennifer e suas amigas se divertiriam ainda mais. Foi 
para ajud-lo que passei por ele. Tentei indicar com um sorriso que era melhor no me sentar ao seu lado pelo menos nesse dia. Ele pareceu compreender. Segui adiante, 
encontrei um banco vazio. Ningum sentou ao meu lado.
O nibus partiu. A princpio, houve apenas o som habitual de conversas e risos. Mas de repente soou uma risada estridente, que reconheci como sendo de Jennifer. 
Virei-me no momento em que ela e suas amigas comeavam a entoar:
- Eu... eu... a-amo vo-voc... Ra-Raven.
Uma onda de gargalhadas percorreu o nibus. Todos riram e aderiram ao coro. A motorista do nibus parecia confusa. Era uma mulher corpulenta, chamada Peggy Morris, 
os cabelos cortados curtos. Vestia um jeans e uma blusa de flanela, as mangas enroladas at os cotovelos. Apesar de sua aparncia rude, eu sempre a achara simptica 
e cordial.
Olhei para Clarence. Ele tapara os ouvidos e balanava no banco.
- Parem com isso! - gritei, o que provocou mais risos. - Parem, seus idiotas!
O coro se tornou ainda mais alto. Eu esperava que Peggy Morris fizesse alguma coisa, mas ela se encontrava ocupada demais com um carro em ziguezague na frente do 
nibus.
Subitamente, Clarence levantou-se de um pulo e gritou como um animal ferido. Sua voz ressoou pelo nibus. Mas em vez de interromper a zombaria, provocou mais risos, 
um coro mais alto. Clarence tornou a tapar os ouvidos. Tambm gritei para que parassem. O tumulto era total, como se o nibus estivesse ocupado por um bando de loucos. 
Peggy acabara de fazer a curva, diminuindo a velocidade do nibus, quando Clarence surpreendeu a todos, ao bater com o punho na janela. A primeira batida fez com 
que o coro cessasse. Eu sentia a garganta apertada, mal podia emitir qualquer som, mas consegui balbuciar:
- Clarence...
Ele bateu de novo, com mais fora ainda, espatifando o vidro. Ficou parado ali, o sangue escorrendo pelo lado do brao. As meninas gritaram. At alguns garotos gritaram. 
Peggy Morris pisou no freio e parou o nibus junto do meio-fio, no instante em que Clarence cambaleava para trs. Ela segurou-o antes que ele casse por cima da 
grade e rolasse pelos degraus.
Todos ficaram em silncio. Avancei pelo corredor. Peggy gritou para que eu pegasse o estojo de primeiros socorros. Foi o que fiz. Ela o abriu, comprimindo um punhado 
de gaze contra a mo e o brao de Clarence. Depois me fitou e disse:
- Salte e procure um telefone. Pea uma ambulncia. Depressa!
Quando ela abriu a porta, saltei do nibus e corri para uma loja de convenincias na esquina. O homem por trs do balco ligou para 911 por mim. Voltei ao nibus. 
Todos continuavam quietos, inclusive Jennifer. A motorista fazia o melhor que podia para estancar a hemorragia. Clarence estava deitado no cho, com os olhos fechados. 
A impresso foi de que passou uma hora, mas demorou apenas alguns minutos para que ouvssemos a sirene de uma ambulncia, seguida por um carro da polcia. As conversas 
recomearam quando os paramdicos entraram no nibus, ouviram o relato do incidente e comearam a cuidar de Clarence. Momentos depois, tiraram-no do nibus numa 
maca. Assim que ele foi posto na ambulncia, Peggy Morris voltou ao nibus, parou no incio do corredor, com as mos nos quadris largos. Lanou um olhar furioso 
para todos, o rosto ainda plido pelo choque e ansiedade.
- No quero ouvir mais um pio de ningum - disse ela, a voz trmula. - Absolutamente nenhum pio.
Ela deu a partida no nibus e seguimos para nossos destinos num silncio fnebre. Meu corao batia forte. Sentia uma nusea revoltante a me embrulhar o estmago. 
Em nossa parada, levantei-me e desci os degraus devagar.
- Obrigada por sua ajuda - disse Peggy Morris. Acenei com a cabea e saltei. Quando comecei a subir a calada, Jennifer passou por mim e disse:
- Voc  a nica culpada.
Precisei de todo o meu controle para no correr atrs dela, agarr-la pelos cabelos, enquanto chutava e esmurrava seu rosto zombeteiro e horrvel. Mas sabia que 
no podia mergulhar ao seu nvel, no importava o que acontecesse. Nunca seria to mesquinha.
Tio Reuben soube de Clarence antes de chegar em casa naquela noite. O padrasto de Clarence recebera um telefonema no trabalho e correra para o hospital. Tio Reuben 
ignorava os detalhes, mas percebi, pela maneira como me fitava ao fazer perguntas a respeito, que presumia que eu tinha alguma coisa a ver com o incidente.
- O que aconteceu? - perguntou ele.
- Clarence pirou - respondeu Jennifer.
- Por qu?
- Os garotos comearam a zombar dele e ele pirou. J  mesmo meio louco.
- Como zombavam dele?
- Por causa de sua gagueira.
- Isso  tudo? - insistiu tio Reuben, ainda me fitando com expresso desconfiada.
- No sei se aconteceu mais alguma coisa, papai, porque no estava prestando ateno. De repente, ele bateu com a mo na janela. No  coisa de louco?
- Que coisa horrvel... - murmurou tia Clara.
- Ele sangrou? - perguntou William.
- Bastante - respondeu Jennifer. - Foi por isso que tiveram de chamar a ambulncia.
William fez uma careta e olhou para mim.
-  muito estranho que todas essas coisas horrveis comecem a acontecer de repente - comentou tio Reuben.
Mais tarde, Jennifer teve a desfaatez de me procurar para dizer que me prestara um favor.
- Protegi voc, Raven. Portanto, no me culpe por coisa alguma.
- Como me protegeu? - indaguei, espantada com sua ousadia.
- No contei a papai por que estavam zombando de Clarence. Ele ficaria furioso se soubesse. Por isso,  melhor voc ser boazinha comigo, ou...
Sacudi a cabea.
- Prefiro ser boa com uma cascavel. Voc e tio Reuben merecem um ao outro.
- Contarei a ele que voc disse isso. Quer levar outra surra?
- Deixe-me em paz.
- Preciso que algumas blusas minhas sejam passadas, mas no tenho tempo. Mandarei William traz-las. E  melhor voc no estragar nenhuma, ou vai se arrepender.
Ainda naquela noite, ouvi tio Reuben informar a tia Clara que o padrasto de Clarence telefonara. Dissera que Clarence levara vinte pontos e ficara internado no hospital 
em observao. Talvez tivesse de ir para a enfermaria psiquitrica.
- Ainda no sei como - concluiu ele -, mas tenho certeza de que Raven tem aiguma coisa a ver com o caso.
- Ora, Reuben, isso no  possvel.
- Vou descobrir. Ela s sabe criar problemas. A culpa  de minha irm. Devia ter sido esterilizada.
Era uma coisa horrvel para se dizer, pensei.
Sentia-me angustiada por Clarence. De alguma estranha maneira, eu supunha ser a responsvel. Se no deixasse que me persuadisse a dar uma olhada em seu quarto no 
poro, os outros no teriam zombado dele. Eu trazia o desastre para todas as pessoas, pensei. Tio Reuben no estava to errado assim.
O ferimento de Clarence e todo o incidente no nibus foi o grande assunto das conversas na escola durante o dia seguinte. Os colegas que lhe haviam causado um tormento 
to profundo no sentiam o menor remorso. Na verdade, comportavam-se como se tivessem ajudado a deixar evidente a sua doena mental. Agora Clarence iria para o lugar 
a que pertencia... o hospcio. Eram to presunosos que eu no podia mais suportar. Clarence no voltou  escola; e, na minha opinio, foi ele quem se deu melhor 
por isso.
Ainda naquela semana, o padrasto de Clarence descobriu tudo sobre as zombarias e contou a tio Reuben Ao chegar em casa, munido com esse conhecimento, ele exibia 
uma expresso de profunda satisfao. Anunciou orgulhoso para tia Clara que eu fora mesmo a causa do problema. Por enquanto, parecia contente em comprovar que tinha 
razo. Tia Clara refugiou-se ainda mais fundo dentro do seu casco. A tirania de tio Reuben prevalecia sem qualquer controle. Ele era o que queria ser, o rei de sua 
casa, o juiz supremo e o jri. Ns existamos apenas para o seu prazer e conforto.
Minhas tarefas em casa aumentaram. No teria permisso para ir a qualquer lugar com qualquer pessoa nos fins de semana, pelo menos por um ms. Nada de atividades 
depois das aulas, festas, nem mesmo um passeio no shopping. Tia Clara quase no tentava argumentar. Uma nuvem cobria a casa, ainda mais escura e opressiva do que 
as outras que a haviam precedido.
Esperei e torci por notcias de minha me. No veio nenhuma. Tio Reuben dizia apenas que ela figurava nas listas dos mais procurados de todo o mundo.
- Mas por que ela haveria de aparecer por aqui - declarou ele, com uma risada desdenhosa -, se conta com um irmo para assumir as suas responsabilidades?
Minha me fizera muitas coisas cruis e estpidas comigo, mas a pior de todas, pensei, fora a de ter me deixado com seu irmo.
Eu no imaginava que as coisas ainda pudessem ficar piores.
Mas podiam.
Sozinha em casa

Ficar confinada em casa, enquanto todos saam e faziam coisas nos fins de semana, no era to ruim assim. Eu gostaria ainda mais se William, que parecia apreciar 
minha companhia mais do que a de qualquer outra pessoa da famlia, tambm pudesse permanecer em casa. Mas tia Clara levou-o ao shopping na tarde de sbado para lhe 
comprar roupas e um par de tnis. Jennifer foi a uma matin com as amigas. Antes de sair, ela veio at a sala de costura, onde eu estava passando roupa, para tripudiar.
- Vamos nos encontrar para comer uma pizza e depois iremos ao cinema. Brad sentar comigo. Portanto, no importa o que voc pensa, ele realmente se interessa por 
mim.
- Fico feliz por voc - comentei, sarcstica.
- Se no fosse to rancorosa comigo, Raven, eu poderia fazer com que os garotos gostassem tambm de voc.
- Eu? Rancorosa com voc? - No pude deixar de sorrir. - Acredita mesmo nisso... ou apenas acha que sou uma idiota?
- Acho que  uma idiota. Virei-me para ela.
- Quando vim para c, Jennifer, sentia pena de mim mesma e at a invejava. Voc tem pais, uma boa casa, um irmo caula maravilhoso. Parecia ter tudo que eu sempre 
desejara. Mas depois passei a conhec-la melhor e descobri o que realmente acontece aqui. Quer saber o que penso agora?
- O que ?
- Sinto ainda mais pena de voc do que de mim. Voltei a me concentrar em passar a roupa.
- No tenho a menor idia do que est falando, Raven. Voc  doida, como Clarence. No sei por que me dei ao trabalho de tentar ser sua amiga.
- Ser sua amiga  como fazer amizade com uma cobra.
Jennifer virou-se e foi embora. Bateu a porta da frente com tanta fora que toda a casa tremeu. Sorri para mim mesma, liguei o rdio e comecei a desfrutar a minha 
solido. Tio Reuben j partira para o boliche com seus amigos. Eram bem poucas as ocasies em que eu tinha oportunidade de ficar sozinha sem sentir que era vigiada 
ou julgada.
Tinha de encarar o fato de que minha me nunca viria me buscar, que eu nunca mais poderia viver com ela. Quando fosse apanhada, passaria uma boa temporada na priso; 
e mesmo que tivesse bom comportamento e recebesse livramento condicional, ainda assim seria enviada para outro centro de reabilitao de drogados. Depois disso, 
talvez nem recebesse permisso para morar comigo; e quem podia afirmar que ela de fato queria essa responsabilidade?
Talvez eu devesse parar de lutar com a realidade, pensei. Isso s fazia aumentar mais ainda a minha mgoa. Era como uma pessoa amarrada com cordas de piano, que, 
ao se debater para ficar livre, s conseguia se cortar por todo o corpo. Tinha de aprender a ignorar, a
olhar para o outro lado, fingir, inventar meu prprio mundo. Talvez tia Clara no estivesse se comportando de uma maneira to errada. Pelo menos ela encontrava alguma 
paz em sua vida ao se manter deliberadamente cega para todas as coisas desagradveis que havia em sua famlia. Podia continuar, encarar cada nova manh com uma esperana 
renovada.
Eu era como uma pessoa sendo levada rio abaixo pela correnteza forte. Podia me debater, tentar desesperadamente lutar contra a gua, mas apenas desperdiaria minhas 
foras; ou podia me virar na direo em que a gua flua e tentar nadar um pouco mais depressa do que a correnteza. Talvez se permanecesse mesmo alguns poucos centmetros 
 frente do meu destino pudesse ter algum senso de propsito, algum sentido e identidade, pensar em mim mesma como real, uma pessoa com um sobrenome e com algum 
controle sobre o que lhe aconteceria. A correnteza no poderia continuar para sempre. Haveria de me levar para algum lugar, deixar-me em alguma praia; e se eu resistisse 
e me mantivesse forte, poderia me levantar sobre os meus prprios ps e iniciar uma vida nova.
Era a minha nica esperana, a nica opo que me restava. Compreender isso foi como remover um peso dos meus ombros. Comecei a me sentir bem. At balancei o corpo 
ao ritmo da msica enquanto trabalhava. Acompanhei os cantores. Fui  cozinha, peguei um refrigerante, voltei ao meu quarto para terminar de passar a roupa. Depois 
de terminadas as minhas tarefas, tomaria uma chuveirada e passaria o resto do dia lendo e fazendo os deveres de ingls.
Estava sendo um dos melhores dias que eu j passara na casa dos meus tios. Ri para mim mesma ao refletir que o motivo para aquele momento to agradvel era o fato" 
de no haver mais ningum em casa. Lavei os cabelos no chuveiro. Fui sentar na frente do pequeno espelho em meu quarto. Enxuguei os cabelos, primeiro com uma toalha, 
depois com o secador de tia Clara. Meus cabelos eram de fato gloriosos, abundantes e longos. Mame sempre os invejara, lamentando os seus, muito finos e ralos. Passava 
as mos por meus cabelos e os encostava nos dela, como se o contato pudesse transferir um pouco do meu vio.
Sentada ali, no roupo azul-claro que tia Clara me dera, comecei a fantasiar. Sonhei com as mais diversas situaes, em companhia de um lindo rapaz, que se apaixonaria 
por mim  primeira vista, me levaria para longe de tudo aquilo. Por que eu no podia ser uma Cinderela de verdade? Em algum lugar havia, com certeza, um rapaz destinado 
a se apaixonar por mim, meu marido, meu prncipe encantado, algum que reconheceria minhas foras e minha beleza, que haveria de me querer ao seu lado para todo 
o sempre.
Entregava-me a esse devaneio, at ouvindo a msica, as vozes, sentindo o vento em meus cabelos enquanto passevamos de carro por pitorescas estradas rurais, rindo, 
beijando, prometendo amor eterno, quando tio Reuben voltou. No o ouvi entrar em casa, muito menos vir para o meu quarto. S quando ele se postou atrs de mim, balanando-se, 
os olhos vidrados,  que percebi sua presena. Virei-me na cadeira para fit-lo.
- Est se arrumando toda para outro, hem? - indagou ele, com um sorriso frio.
- No. J fiz todas as minhas tarefas em casa; resolvi ento tomar um banho e ficar limpa antes de comear os deveres da escola.
No pude acreditar como minha voz saa to tmida. Sentia-me to tensa e contrada que o corao mal batia.
- Ficar limpa? Voc? - Ele sacudiu a cabea, soltando um grunhido. -  suja demais, da cabea aos ps.Nem todo o sabonete e gua quente do mundo poderiam limp-la.
- No  verdade! - protestei. - No sou suja!
-  a filha de sua me. J demonstrou isso no pouco tempo em que est aqui. Seduzindo aquele garoto retardado...
- No fiz isso!
- Vai continuar assim - acrescentou ele, acenando com a mo. - Nunca vai mudar.  uma questo de sangue ruim.
- Se h sangue ruim nesta famlia - murmurei, os olhos contrados -, est mais em voc do que em minha me e em mim.
Ele deu um passo para trs e piscou, aturdido, como se eu lhe tivesse dado um tapa.
- Ento  assim? Voc ainda tem a boca grande, hem?
Tio Reuben cambaleou. Pude sentir o bafo de lcool em sua respirao. Deixou meu estmago embrulhado, enquanto ele acrescentava:
- Eu deveria ter expulsado voc desta casa ou entreg-la ao tribunal, para que a internassem em algum orfanato.
- Eu bem que gostaria que tivesse feito isso. Contaria a todo mundo como  uma pessoa horrvel... como aterroriza sua famlia com ameaas e surras.
Os olhos de tio Reuben se arregalaram. Ele abriu e fechou a boca sem emitir qualquer som. Cambaleou um pouco, enquanto o rosto se tornava vermelho.
- Do que est falando? Que tipo de mentiras srdidas andou espalhando? A quem contou essas histrias?
- A ningum... por enquanto.
Apesar das pernas trpegas e dos olhos meio vidrados, "ele conseguiu erguer a mo com tanta rapidez e preciso, que me deu um tapa no rosto antes que eu pudesse 
levantar o brao para me defender. O golpe doeu. A violncia me derrubou da cadeira. Ca sobre um joelho. Antes de poder ficar de p, ele segurou meu roupo por 
trs e o puxou com fora, suspendendo-o.
- Voc est nua por baixo? Sentada nua aqui?
-  o meu quarto.
- Com a porta escancarada? Voc  uma vagabunda, uma provocadora, como sua me. Terei de lhe ensinar a mesma lio que ensinei a ela. Vou lhe mostrar o que acontece 
com garotas como voc.
Tio Reuben se abaixou e me agarrou pela cintura. Levantou-me como se eu no pesasse nada e me jogou no sof-cama.
- No! - gritei. - No toque em mim!
Ele deu um tapa com toda fora na minha bunda. Sentou ao meu lado e puxou o roupo ainda mais, o que o fez subir para a cintura.
- Isso  tudo o que voc quer: ser tocada - murmurou ele, a voz subitamente mais suave.
Sua atitude me deixou ainda mais assustada. Um calafrio me subiu pela espinha. Virei-me para escapar, mas tio Reuben comprimiu o tronco pesado contra as minhas costas. 
Fiquei imobilizada por baixo dele. Tornei a sentir sua mo nas minhas ndegas, descendo por entre as coxas.
- Igualzinha  sua me; tudo o que voc quer  ser acariciada.
Gritei e me debati quando seus dedos avanaram para o lugar em que at eu hesitava em tocar.
- Est trazendo vergonha para a minha casa - murmurou tio Reuben, enquanto continuava a me tocar.
Depois, como se percebesse de repente o que estava fazendo, ele parou e me deu outro tapa.
- Todos no boliche falavam sobre o garoto Dunsen e o que voc fez. Foi embaraoso. Queriam saber que tipo de sobrinha morava comigo. Voc no escuta. Continua fazendo 
coisas horrveis. Tenho sido indulgente demais com voc.
Tio Reuben inclinou-se para a frente e pegou minha escova de cabelo. O primeiro golpe doeu tanto que at vi estrelas. Raios iluminaram meus olhos. A dor espalhou-se 
pelas costas e os lados do meu corpo, como se eu fosse uma placa de vidro se espatifando. Ele me bateu outra vez e mais outra; sua mira era to precria que alguns 
golpes me acertavam nas coxas. Cada um me deixava sem flego. Quando acabou, tio Reuben permaneceu no sof, por cima de mim, a respirao pesada.
- Ser pior ainda se fizer outra coisa errada. Arrancarei sua pele, entendido?
Ele beliscou com toda a fora a carne por baixo das minhas ndegas.
- Entendido?
- Entendido!
- Assim  melhor. - Tio Reuben se levantou. - E tambm no quero que conte qualquer coisa para Clara, entendido? Se contar...
No me mexi at ouvi-lo sair do quarto, fechando a porta. Ao primeiro movimento, no pude acreditar que doesse tanto. Era a pior surra que eu j levara, a mais degradante.
Gemi, virei de costas, e fiquei olhando para o teto. Foi assim que tia Clara me encontrou mais tarde. Pensou que eu estava doente. Expliquei que apenas sentia dor 
da menstruao. Ela acreditou e me deixou na cama, propondo cuidar de todo o jantar sozinha. Tio Reuben no contestou a histria. Jennifer no se importava; nem 
ao menos apareceu na porta do quarto para dizer que se divertira com os amigos. William foi me ver. Tentei desesperadamente esconder minha dor e agonia, mas mesmo 
assim ele pareceu senti-la. Seus olhos transbordavam de suspeita e medo.
Mais tarde, quando sa do meu quarto para jantar com os outros, andei como uma garota que sofria de clicas menstruais. Tia Clara comentou que era lamentvel que 
a medicina moderna pudesse encontrar cura para quase tudo, menos para aquilo.
- Talvez seja porque quase todos os mdicos so homens - murmurou ela.
- Isso  um absurdo, uma propaganda das feministas - protestou tio Reuben.
Ele se lanou em um dos seus discursos sobre os padres de nossa sociedade em decadncia, com todos os movimentos liberais na poltica e no governo.
Fui deitar cedo e passei a maior parte do dia seguinte na cama. A dor era profunda e persistente. Comi pouco e dormi o mximo que podia. Na manh seguinte, segunda-feira, 
tio Reuben ordenou que eu me levantasse e ajudasse nas tarefas da manh.
- E nem pense em ficar em casa, em vez de ir  escola. Sei que costumava fazer isso quando vivia com minha irm. Provavelmente ela perdia a noo dos dias.
Andar ainda era doloroso, mas me apavorei ao pensar que ele arranjaria outro pretexto para me bater, se no obedecesse. Embarquei no nibus e segui em silncio para 
a escola. Durante as aulas da manh, no parava de me contorcer na carteira,  procura de posies confortveis, menos dolorosas. S o sr. Gatlin notou, perguntando 
se eu sentara num formigueiro. O que provocou risos, mais sussurros e zombarias nos corredores, no intervalo das aulas.
Meu maior problema era a aula de educao fsica. Tentei usar a menstruao como desculpa, mas a sra. Wilson mandou que eu pusesse o uniforme assim mesmo e ficasse 
assistindo  aula. Bem que supliquei, mas ela exigiu.
- Minhas alunas sempre vestem o uniforme de ginstica. No abro mo dessa norma.
Ela me observou sair de sua sala. Minutos depois, quando eu trocava de roupa, a sra. Wilson entrou no vestirio.
- Oh, Deus! - exclamou ela. - O que aconteceu com voc?
Virei-me, segurando o uniforme contra o peito. Os verges e marcas roxas nas coxas ainda eram visveis, em particular no lugar em que tio Reuben me beliscara.
- Nada - murmurei.
- Isso est longe de ser nada. Pode se vestir. V direto para a sala da sra. Millstein.
- Mas...
- Faa o que estou mandando!
Ela ficou me olhando, horrorizada, enquanto eu tornava a me vestir. Depois, voltou  sua sala. Quando cheguei  sala de enfermagem, descobri que a sra. Wilson j 
telefonara. A sra. Millstein me esperava, pronta para o que descobriria.
- Entre, Raven, por favor - murmurou ela, quando abri a porta.
A sra. Millstein levou-me para uma das salas de exame e disse:
- A sra. Wilson me falou de suas leses. Quer me mostrar?
- Estou bem.
- Sei que est. Mas caso seja preciso fazer mais alguma coisa, seria uma boa idia me mostrar. Certo?
Hesitei. E, de repente, o mundo inteiro pareceu desmoronar. No podia mais me controlar. As lgrimas que haviam aflorado a meus olhos muitas e muitas vezes antes, 
as lgrimas que me esforara em reprimir, agora se despejaram sem qualquer controle. Desatei a chorar e parecia que nunca mais acabaria. A sra. Millstein teve de 
me ajudar a sentar.
- Calma, Raven, calma... Tenho certeza de que a situao no  to ruim assim.
- , sim!
Levantei a saia devagar. Ela examinou as equimoses. Fiquei de p e mostrei as outras.
- Como isso aconteceu, Raven?
Como eu hesitasse, a sra. Millstein acrescentou, em voz mais firme:
- Tem de me contar, Raven. Quem fez isso com voc?
Respirei fundo. Tinha mais alguma importncia quem soubesse e que tipo de vida horrvel eu levava? Tornei a me sentar e olhei para o cho. As lgrimas pingavam do 
meu queixo.
- Raven?
- Meu tio - murmurei, a voz cansada, derrotada.
- Como ele fez isso?
- Bateu em mim com uma escova de cabelo e me beliscou depois... depois...
As lgrimas tornaram a correr num fluxo incontrolvel. Tinha a sensao de que o peito ia ruir e esmagar o corao. A sra. Millstein me entregou um mao de lenos 
de papel. Pegou minha mo em seguida.
- Fale devagar, Raven. No precisa se apressar. Mas quero que me conte tudo. Estou aqui para ajud-la, meu bem. Continue. - Ela se ajoelhou na minha frente, segurando-me 
a mo. - O que mais ele fez com voc?
- Depois que comeou a me bater, tio Reuben me tocou onde no deveria. Em seguida me bateu com a escova at eu quase desmaiar.
- Isso j tinha acontecido antes?
- J, sim. Na ltima vez foi com um cinto.
A sra. Millstein fitou-me em silncio por um longo momento, antes de se levantar.
- Fique descansando aqui, Raven. Vai ficar boa. Voltarei num instante.
Tudo o que aconteceu depois foi muito rpido, meio confuso, como um filme projetado depressa demais em minha cabea. Pouco depois, entrou na sala uma mulher do servio 
de proteo  infncia e adolescncia, Marjorie Rosner. A sra. Millstein pediu-me que descrevesse o que acontecera. Marjorie interrogou-me sobre detalhes. Depois, 
afastou-se com a sra. Millstein para uma conversa reservada. Fui levada a um mdico, que examinou minhas leses e entregou um relatrio escrito a Marjorie Rosner. 
Durante todo esse tempo, havia uma atividade intensa ao meu redor, telefones tocando, policiais aparecendo. Fui levada para um lar de adoo temporrio, dirigido 
por um casal idoso. Forneceram-me uma refeio quente e um lugar para dormir. No pensei que seria possvel, mas mergulhei no sono assim que encostei a cabea no 
travesseiro, sentindo o corpo afundar no colcho.
Pela manh, Marjorie veio me buscar. Explicou que eu seria levada a um tribunal de famlia, para ser interrogada por um juiz. Avisou que meu tio e minha tia talvez 
estivessem presentes.
- Seu tio j foi interrogado pela polcia, assim como sua tia - informou ela.
- O que ele disse que fez com a minha me?
- Vamos nos concentrar em voc por enquanto - declarou Marjorie.
Eu me sentia to assustada que mal consegui andar at o carro de Marjorie. Ela procurava me tranqilizar a todo instante, insistindo que tudo acabaria bem.
- Prometo que ele nunca mais vai pr a mo em voc, Raven.
Quando entramos no tribunal, avistei tia Clara sentada sozinha num banco do corredor. Ela tinha a cabea baixa, as mos no colo. Parecia muito pequena e perdida. 
Senti pena dela. Quando nos ouviu no corredor, tia Clara ergueu o rosto. Tinha os olhos injetados, o rosto plido.
- O que voc fez, Raven? - perguntou ela, num fio de voz.
- O problema no  o que ela fez, sra. Stack, mas sim o que seu marido fez - interveio Marjorie Rosner.
- Ele no faria essas coisas. Tenho certeza de que no faria.
Ela me fitou, esperanosa.
- Sinto muito, tia Clara. Acho que sabia que ele faria.
Tia Clara levou o punho  boca para tentar conter o choro que comprimia sua garganta.
Marjorie me fez seguir em frente. Olhei para trs antes de entrarmos na sala do juiz. Tia Clara cobrira o rosto com as mos e balanava-se gentilmente, como uma 
pessoa sentindo uma intensa dor. Meu corao parecia um bloco de chumbo.
- Detesto mago-la...
- Est fazendo o que  certo, Raven. Apenas responda s perguntas do juiz.
Respirei fundo e entrei na sala, sentindo-me como algum numa montanha-russa que acaba de alcanar o ponto mais alto antes de uma descida. Dentro de um momento, 
sabia que iniciaria uma descida vertiginosa, segurando o carro com toda a fora, os olhos fechados, gritando, sem saber para onde a prxima volta me levaria.

Eplogo

Tio Reuben negou tudo,  claro. Admitiu me bater, mas alegou que eu era to corrompida que no tinha opo. O juiz no acreditou nele. Tambm no tinha a menor inteno 
de me mandar de volta para a casa de tio Reuben. Com minha me desaparecida e sem outros parentes que pudessem assumir a responsabilidade por mim, eu me tornava 
uma tutelada do Estado. Era o que tio Reuben previra para mim desde o incio. Portanto, de certa forma, suponho que ele conseguiu o que queria.
Senti mais pena por William e Jennifer, j que tinham de continuar em casa. Foi o que comentei para Marjorie. Ela achava que William podia um dia sair do casulo 
auto-imposto da famlia para ajudar a todos, especialmente tia Clara.
- Na terapia, tudo ser exposto - comentou Marjorie.
Eu no sabia se acreditava ou no; e, no momento, no podia pensar em qualquer outra coisa alm do que me acontecia. Ela percebeu como eu me sentia ansiosa. Por 
isso, decidiu me levar pessoalmente ao novo lar de adoo.
-  uma das nossas melhores instalaes - explicou ela, ao partirmos de manh. - Era antes uma pousada. O mesmo casal que a dirigia, Gordon e Louise Tooey, cuida 
agora do lar de adoo. O terreno  lindo e h muito espao no prdio.
Do jeito como ela falava, parecia que eu ia para um acampamento de vero. Marjorie informou que havia outras garotas da minha idade ali. A prxima escola em que 
eu estudaria era uma das melhores do Estado.
- Pais adotivos em potencial visitam o local com freqncia - garantiu ela.
Eu no sabia se queria outra me. Nunca tivera um pai, e a experincia com tio Reuben me deixava nervosa com a perspectiva de deixar outra pessoa assumir o controle.
E, quela altura, por que algum haveria de querer me adotar? Se eu fosse uma mulher  procura de uma criana para adotar, tentaria encontrar uma que fosse pequena, 
a quem pudesse ensinar e desenvolver. Jamais desejaria uma filha que tivesse levado uma vida como a minha.
Marjorie viu o pessimismo em meu rosto, mas continuou a falar sem parar sobre o futuro brilhante que me aguardava. Prometeu-me que o pior j passara. Assegurou-me 
que o Estado providenciaria para que eu nunca mais ficasse nas mos de algum to pervertido e cruel como meu tio ou to perturbado quanto minha me.
- No permitimos que qualquer pessoa assuma o controle de nossas crianas.
Era como se o Estado fosse uma gigantesca superme, com olhos que tudo viam e examinavam, que conhecia cada uma e todas as suas tuteladas.
Eu me sentia muito cansada e deprimida para argumentar ou mesmo me importar. Aquela seria a terceira escola em que eu estudaria em menos de seis meses. Encontraria 
novos rostos, com olhos desconfiados e cautelosos. A coisa mais difcil do mundo era fazer uma amiga de verdade, desenvolver um relacionamento com outro ser humano 
que confiasse em voc, se importasse com voc, que tivesse certeza de que voc retribua. Eu nunca contara com uma amiga assim, e agora tinha dvidas se algum dia 
conseguiria.
Pouco mais de uma hora depois chegamos a um lugar chamado Lakewood House. Descobri que era verdade a primeira coisa que Marjorie me dissera. Era mesmo um prdio 
enorme, com a maior varanda em torno que eu j vira. Marjorie ajudou-me a pegar minhas coisas. Olhamos ao redor. Ela respirou fundo, como se o ar ali fosse mais 
fresco.
- No  lindo? Olhe para o lago l atrs, para as flores. Foi maravilhoso que o casal decidisse fazer da propriedade um lar de adoo temporrio, partilhando tudo 
isso.
Por que fariam tal coisa?, pensei.
Comeamos a subir os degraus. A porta por trs da porta de tela estava aberta. Ouvimos uma voz de mulher:
- J estou indo!
Marjorie abriu a porta de tela e deparamos com uma morena alta, os cabelos descendo at os ombros. Devia ter seus cinqenta anos, os olhos azuis eram vibrantes e 
cordiais.
- Esta  Raven Flores - disse Marjorie. - Raven, esta  Louise Tooey.
- Oi, querida. - Louise pegou minha mo livre. - Vamos entrar. Sei de tudo a seu respeito.
A voz era suave e triste. Os olhos at se tornaram lacrimejantes.
" - O que estamos fazendo com as nossas crianas... - Ela sacudiu a cabea para Marjorie. Tornou a sorrir para mim. - Vou apresent-la agora mesmo  sua colega de 
quarto. Ela se chama Brooke. Tenho certeza de que vocs duas vo se tornar amigas num instante. Somos uma grande famlia aqui. Cuidamos uns dos outros.
Olhei para Marjorie, que me acenou com a cabea e sorriu de novo. No podia deixar de me sentir ctica. Era como a garota que recebera tantas promessas no cumpridas 
que bastava apenas mais uma para empurr-la ainda mais fundo num poo de tristeza. Preferia que no me prometessem coisa alguma. O desapontamento perdurava nas sombras, 
faminto, ansioso, pronto para dar o bote na menor esperana que eu pudesse acalentar.
- Louise! - gritou algum, no alto da escada. - A descarga est com defeito de novo.
Uma garota alta e magra, com aparelho nos dentes, cabelos escuros escorridos, olhava para ns, com as mos nos quadris.
- E no fui a ltima a usar - acrescentou ela. - Por favor, avise a Gordon.
- Est bem, querida. No se preocupe. Vou cham-lo. - Louise riu. - Elas ficam nervosas quando h algum problema. Gordon conserta tudo num instante.  fcil para 
ele. Vem fazendo isso h muito tempo. Agora, levarei Raven l para cima. Descerei logo para nos reunirmos no escritrio.
- Combinado. Adeus, Raven. - Marjorie abraoume. - Voc vai ficar bem.
- No sei por qu - murmurei. - Nunca fiquei antes.
Marjorie e Louise trocaram um olhar apreensivo. Subi atrs de Louise. A garota alta observou-nos por um momento, antes de se virar e se afastar apressada pelo corredor. 
Imaginei que era para anunciar a minha chegada. Paramos num quarto  esquerda. Louise bateu na porta.
- Pois no? Louise abriu a porta.
- Sou eu, Brooke, com a sua nova colega de quarto que tinha prometido.
- Sorte minha - resmungou Brooke.
Ela levantou os olhos da mesa em que havia um gravador, com a caixa aberta. Parecia que o consertava. Ao me ver, Brooke empinou a cabea, num gesto de surpresa, 
interrompendo o que fazia.
- Esta  Raven. Raven, esta  Brooke. Vocs duas so mais ou menos da mesma idade. Portanto, imagino que tm muita coisa em comum.
- Duvido muito - disse Brooke. Sorri para ela.
- Tambm duvido.
- Ahn... Brooke lhe dir tudo sobre a Lakewood House e a apresentar s outras garotas no andar. Pode fazer isso, Brooke?
- Tenho opo?
- Claro que tem, querida.
- Venha comigo - murmurou Brooke, com uma voz cansada. - Eu lhe direi tudo sobre o Hotel dos Horrores.
- Brooke!
-  brincadeira, Louise. Sabe disso.
- Claro que sei. Minhas garotas adoram esta casa. Vou acabar com Marjorie e depois virei falar com voc, Raven. Sinta-se em casa, querida.
Ela saiu do quarto, fechando a porta.
Brooke e eu nos fitamos por um longo momento.
- J conheceu Gordon? - Quando sacudi a cabea, ela acrescentou: - Foi o que pensei. Achei-a muito calma.
- Por que diz isso? Como ele ?
- Enorme, feio e brutal. Afora isso, at que  legal.
Comecei a sorrir.
- Nunca esteve em outros lares de adoo, Raven?
- Apenas passei uma noite em um. Antes disso, morava com a famlia.
- Com a famlia? O que aconteceu?
-  uma longa histria, com um final infeliz.
- Ainda no.
- Como?
- O final. Ainda no foi escrito. Dei de ombros.
- O que est fazendo?
- Tentando consertar o gravador de Borboleta. Algum deixou-o cair da escada. Acho que sei quem foi.
- Ela dorme no quarto do outro lado do corredor, junto com Crystal. Vai conhec-las daqui a pouco. Guarde suas coisas. Pode ficar com metade do armrio e metade 
da cmoda. O banheiro fica no final do corredor.
- Obrigada.
- No agradea a mim. Agradea ao Estado. Brooke voltou a mexer no gravador, enquanto eu arrumava minhas coisas. Algum bateu na porta.
- Abre-te, Ssamo! - gritou Brooke.
Duas garotas entraram no quarto, uma pequena e delicada, a outra com culos de lentes to grossas que pareciam um fundo de garrafa. As duas me fitaram.
- Soubemos que sua colega de quarto chegou - disse a mais alta, que parecia muito inteligente. - Sou Crystal. Esta  Janet. Ns a chamamos de Borboleta.
- Oi - murmurou Janet.
Ela parecia uma boneca que adquirira vida por um passe de mgica. Por que ningum a levara para sua casa at hoje?
- O nome dela  Raven - informou Brooke. - Tinha uma vida familiar horrvel, e se sente contente por ter vindo para c.
- No a deixe ainda mais deprimida - protestou Crystal. - Estamos nos dando bem aqui.
- Claro que sim - concordou Brooke. - Somos as Trs rfteiras.
- Agora quatro - corrigiu Crystal. Brooke olhou para mim.
- Isso depende dela. Soltei uma risada.
- O que foi mesmo que voc disse? Tenho uma opo?
Brooke riu tambm. Borboleta ofereceu um sorriso radiante, enquanto Crystal balanava a cabea.
- Vamos descer e comer a gororoba - decidiu Brooke, levantando-se.
- Gororoba?
- O almoo - explicou Crystal. - E a comida no  to ruim.
- Prefiro pensar nela como horrvel, para ter assim uma surpresa agradvel - disse Brooke. - Vamos embora.
Comecei a sair atrs dela. Crystal ficou ao meu lado e disse:
-  difcil no incio, mas voc acabar se acostumando.
- No pode ser pior do que o lugar em que eu morava.
Ela balanou a cabea.
-  o que todas esperamos.
Crystal adiantou-se para pegar a mo de Borboleta. Descemos. Alm da Lakewood House, em casas por todo o pas, garotas da nossa idade almoavam, conversavam com 
amigas ou sentavam-se com a famlia. Seus sonhos no eram muito diferentes dos nossos. Algum podia nos contemplar e saber que s contvamos com ns mesmas agora? 
Havia uma expresso, um gesto, ou um tom em nossa voz que trasse a solido que sentamos?
Percebi tudo nas outras trs - a desconfiana, o medo, a hesitao. Refleti que, num sentido concreto, ramos irms, nascidas sob aquela mesma estrela pequena e 
distante, cercadas pela escurido, esperando, observando, tentando desesperadamente manter nossa luz acesa.
Quantos sorrisos a menos teramos? Quantas risadas a menos? Quantas lgrimas a mais que todas as garotas seguras e amadas de nossa idade? O que fizramos para sermos 
trazidas para este lugar?
No fundo da escada, elas ficaram esperando que eu as alcanasse.
- Mantenha-se perto - ordenou Brooke. -  uma de ns agora.
- Acho que sempre fui - murmurei. Brooke sorriu.
Crystal parecia pensativa.
Continuamos pelo corredor, juntas. Quatro meninas unidas, acumulando foras para travar a batalha contra a solido.
Para acender a nossa preciosa estrela.
Data de concluso da leitura: 26 de junho de 2008.
